Oh! Cabelo nas ventas! Recordemos Benito Barros

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A crônica, bela e divertida crônica de Benito Barros foi publicada no Jornal de Macau, p. 15 outubro/novembro de 1995, na coluna Caçuá de Quinquilharias. A republicação é a homenagem do baú de Macau ao sempre companheiro Benito Barros que faria 56 anos no dia 21 de abril de 2013.

                                                                                                                                                                                             De Claudio Guerra para o baú de Macau

Quem tem medo de Mário de Andrade? Ou o fantástico Coupe Boil

 

O Coupe boil da discórdia fotografado por Getulio Moura

O Coupe boil da discórdia fotografado por Getulio Moura

Por muito tempo fui atanazado pelo fantasma de um poema de Mário de Andrade. Ode ao Burguês. Fantasma não, essa poesia desgraçada era uma peixeira permanentemente enfiada no meu cérebro no exato local onde discutimos nossas preferências ideológicas.Para que o caríssimo leitor entenda direito é mister recordar que, antes desse, o meu único contato com a poesia se restringia à obra-prima “O gol que Pelé fez na Tchecoslováquia” que prenunciava uma brilhante carreira poética inexplicavelmente substituída pelo manuseio de pipetas e gráficos estatísticos: o autor é renomado cientista radicado em Recife, e, não publico seu poema para não ser vitima de fratricídio.

Pois bem, benevolente leitor, imagine uma cabeça apenas suavemente maculada pela brilhante peça lírico-futebolística se deparando com a brutalidade da Ode ao Burguês?!

Eu, que já havia optado pelo trabalho na sua luta contra o capital, tomei a sério e ao pé da letra a descrição do burguês feita em Paulicéia Desvairada. Para mim era inimigo e abjeto. “O homem-curva! O homem-nádegas.” Assumi como lei irrevogável o “Morte à gordura.” Mas a agressão mais suave, mais marcante e que me torturaria até os dias atuais – além, lógico, do medo, do medo de contrair as terríveis “adiposidades cerebrais” – era o pavoroso “Oh! cabelos nas ventas!”

O leitor há de convir que para se manter uma delgada silhueta, em tudo contrária ao balofo burguês do poema, basta um ameno sacrifício dietético. Um pouco de leitura de igual teor da epopeia esportiva acima mencionada é remédio eficaz no combate às adiposidades cerebrais. Mas… Mas e os cabelos nas ventas? Como tratar essa imunda praga?

Claro, ingênuo leitor, que sei muito bem as utilidades de uma tesourinha. Sei também, no entanto, que uma alma neurastênica, um espírito irrequieto, enfim, um indivíduo vitima constante de colossais ressacas corre enorme risco de se ferir ao tentar introduzir uma tesourinha venta adentro. E quantas vezes não me furei, me cortei ou estropiei o interior das ventas tentando debelar a tesouradas o pesadelo andradeano?!

Mas, vingança das vinganças! Hoje não esfolo os interiores narigais (?) graças à inventividade burguesa dos chineses de Taiwan e à benemerência de um certo cunhado que em viagem a Europa deu de presentear-me com a mais fantástica das maravilhas que a tecnologia asiática cuidou de inventar o COUPE BOIL AUTOMATIQUE. Escrevo esse nome em maiúsculas e em negrito para que a posteridade saiba reconhecer o valor desse inestimável invento e inolvidável presente de tão amável parente.

Esse impressionante exemplo da engenhosidade humana – o COUPE BOIL, não o cunhado – assemelha-se a uma caneta que, em vez de bico  ou pena, ostenta numa das extremidades, um conjunto de finíssimas lâminas que se cruzam movidas por um pilha. Essa extremidade é um pouco mais fina que o restante do corpo da máquina para que se possa introduzir no orifício das ventas.

Aí está compreensivo leitor: sem correr risco de ferir-me, minhas neuras andradeanas enfim feitas pó, melhor dizendo, miúdos pentelhinhos. Já que mencionei o popular sinônimo dos pelos pubianos sou forçado a fazer um esclarecimento na realidade, a engenhoca não foi presente do meu cunhado. Recebi-o de outras mãos, mas por força de insistente sugestão do biltre.

Houvesse pelos na região intra-retal eu certamente devolveria essa maravilha ao gentilíssimo esposo de minha irmã para que dela – da máquina, não da minha irmã – fizesse o uso mais adequado. Eu fico impressionado com a generosidade do sacripanta: vai a Europa, com minha irmã e minha mãe, e tem a brilhante idéia de sugerir às duas que eu ficaria muito mais feliz ganhando a maquininha que recendo livros ou discos.

Só pode ser vingança pela irmã que lhe dei.

Benito Barros [1957-2010]

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