Ante o passado: a poesia terna de Getulio Vargas Maia Barros

0

Ser poeta é assim, viver meio entorpecido pela aridez da vida, desta vida, afinal o capitalismo trucidante é contra poesia. Para o capitalismo, arte só na prateleira para vender com lucro. Fora disso, nem venha! É o que dizem os mercadores.  Mas o poeta, esse que não dá a mínima para o mercado, quando vê a necessidade, faz arte.  E foi assim mais uma vez com o poeta Getulio Vargas Maia Barros que por entre os becos e gamboas de Macau conseguiu desvencilhar-se e nos presenteia com sua poesia carregada de amor  e ternura.

 

 

Décadas 1960/1970. Desfile em Macau[RN]

Décadas 1960/1970. Desfile em Macau[RN]

Ante o passado,

pisando estas pedras disformes,

a lama, as ostras, os mariscos,

vejo-me marchando de uniforme cáqui,

criança,

olhando o rio…

Era o sonho de partir…

 

Agora,

aqui estou!

dissecando ao vento

feito “avoadores” nos palanques,

cansado de lembranças juvenis…

 

Aqui estou,

ante o novo, o moderno,

feito o lume oscilante de um “flash light”

na escuridão de ruas ermas…

 

Aqui estou,

ferindo os olhos

de intenso verde mar,

salitrado de peixes e búzios,

feito barragens

sangrando salinas…

Feito salinas

sangrando vidas…

 

Aqui estou,

vivendo o extraordinário das lembranças,

das visões,

posto e exposto,

assustado,

feito um menino perdido em uma procissão…

 

Aqui estou,

transmudando-me como dunas,

entranhando-me feito o açúcar dos camapuns,

das algarobas,

singrando-me entre gamboas…

 

Aqui estou,

olhos embaçados,

chorando a tristeza do que fizeram de ti,

feito a dor da impotência

ante a maldade dos insensatos,

feito a dor da ausência

latejando em um coração

abarrotado de saudade…

 

E tristeza…

feito o brilho quase opaco

de um balaio de carapebas mortas…

 

Deixe uma resposta