Macau na Folha de São Paulo: Macauísmos de Benito Barros

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antigo prédio de Amaro do Valle

antigo prédio de Amaro do Valle

O retrato da cidade visto pelo jornalista Evaldo Dantas da Folha de São Paulo. Ficaria esquecido não fosse a sensibilidade do Professor Benito Barros que pesquisou e incluiu a matéria no seu livro Macauísmos – Lugares e falares macauenses. O livro é um legado de um macauense honesto com seu povo e sua terra.

O outro homem

Na vida urbana, fora da salina, há outro tipo de homem que vive as mesmas agruras do paria, o salineiro: é o que trabalha na estiva ou nas barcaças que levam o sal para os navios. Esse é o homem que ganha dinheiro. Pra ter-se uma idéia do fenômeno basta lembrar a miserabilidade do salário mínimo no Rio Grande do Norte. Quando ele não chegava a 10  mil cruzeiros, o último dos trabalhadores do transporte do sal dos aterros a bordo dos navios, um auxiliar de barcaça, ganha acima de 70 mil cruzeiros. Hoje, dentro das barcaças, há os que ganham até 400 mil cruzeiros. A mocinha  assustada que fez o estudo da comunidade, em Macau, comenta: “sem nenhuma perspectiva, sem nenhuma forma de afirmação, o homem de Macau procura revelar-se pelo dinheiro e pelo sexo. E isto dá conformação à cidade”.

Se, por exemplo, um funcionário do Banco do Brasil, que normalmente é figura de prestígio em qualquer cidadezinha do interior, começa a discutir o preço de um pedaço de jerimum ou de uma lata dagua, vai chegando um barqueiro, de chinelo japonês, calça imunda, camisa rasgada ou sem camisa, dá uma cuspida do lado e oferece o dobro.

O homem que vem do trabalho, no fim do dia, só tem um rumo: a bodega. Bebe com os companheiros. Ele tem uma casa – pelo menos – com mulher e filhos. Mas comumente tem duas. E até três. Quando muito, escolhe uma delas por critérios de mistérios que a natureza humana não revela. Come o que tem de comer e pronto: lá se vai para a bodega esperar que o sono o prostre para fechar o ciclo de uma jornada desumana, de mártir de um martírio que a ninguém aproveita.

Bar de Xixis Borja, década 1960.

Bar de Xixis Borja, década 1960.

 

Estatísticas na cidade não existe, mas na estatística da boca popular se ouve que em Macau há um homicídio por mês. Em Macau, onde praticamente não há ódios porque os sofrimentos abafam tudo”

Reportagem do jornalista Ewaldo Dantas Ferreira publicado na Folha de São Paulo em  18 de abril de 1963, 1º Caderno, página 20.

Página 99,  Macauísmos – lugares e falares macauenses,  de Benito Barros 1ª edição, Edição do autor, Macau-RN. 1997.

 

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