Macau e a escravidão

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escravos imperio brasilNeste mês de maio de 2013 quando se completa 125 anos da abolição da escravidão no Brasil, é bom lembrarmos que muitos republicanos eram escravocratas. O jornal O Macauense fundado em agosto de 1886, claramente defensor do Partido Conservador, era monarquista e não escondia isso. Bons tempos aqueles que um jornal não escamoteava fatos e tinha lado. No recorte do texto que ilustramos este artigo, extraído do jornal O Macauense de 7 de setembro de 1888, lê-se a crítica ácida do jornalista macauense. Afinal, ainda hoje estamos no embate para fazer valer os valores republicanos.libertacao dos escravos O Macauense ed 41

República – A idèia e a propaganda Republicana Evolucionista agita-se no Paiz com força e estrepito depois da libertação dos escravos.  Maldizem a corôa hoje, muitos dos que hontem queimavam-lhe o mais cheiroso incenso. Felismente  a revolução é de guela ou antes é uma Evolução em vez de Revolução… Mas quem é o CAUDILHO, ou antes o cabeça para guiar o Povo na transição que se vai operar? … Corpo sem cabeça não pode ter orientação alguma – não pode deliberar. Verba e não res parece ser o ideal da nova phase dos Republicanos Brazileiros.  Veremos.Cresça e apareça como diz o nobre presidente do Conselho. Jornal O Macauense número 45, página 2, Ano III,  7/9/1988.

E o Marechal Deodoro conduziu a proclamação da república a mando da elite paulista.

De Claudio Guerra para o baú de Macau

 

Para completar leia o bom texto do escritor Machado de Assis que ilustra bem o ímpeto abolicionista de muitos cidadãos daquela época.

A escravidão segundo Machado de Assis – Crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888.

Bons dias!

 Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

- Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…

- Oh! meu senhô! fico.

- …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…

- Artura não qué dizê nada, não, senhô…

- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis [1]; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

- Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.

Boas noites.

Machado de Assis,  Obra Completa, Vol.  III. 3ª edição. José Aguilar, Rio de Janeiro. 1973. p. 489/ 491.

Nota do baú de Macau:  [1] À época um ex-escravo empregava-se como assalariando ganhando  400 réis por dia numa fazenda de café de São Paulo; um quilo de biscoito de leite em Macau custava 500 réis e a assinatura do jornal O Macauense custava 5$000 réis por ano.

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