Luiz Maranhão por Danilo Bessa

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Por Danilo Bessa

Professor Luiz Maranhão assassinado pela ditadura e desaparecido político

Professor Luiz Maranhão assassinado pela ditadura e desaparecido político

Quando morei em São Paulo, nos anos tristes da ditadura, trabalhava num banco de investimentos e raramente almoçava em casa. No mês de agosto do ano de 1971, recebi de Natal um saboroso presente: carne-de-sol, feijão verde, manteiga do sertão, queijo…, generosidade de um amigo também inesquecível.

No dia seguinte, telefonei avisando que não trabalharia pela manhã, inventando para o patrão uma desculpa qualquer. Pretendia diminuir a constante lembrança do nordeste através do paladar. E comecei os preparativos. Antes do meio dia, o almoço já quase pronto, ocorre a alegria inesperada pela chegada de Luiz Maranhão. O cheiro forte caicoense da carne que assava na churrasqueira invadiu a sala onde conversávamos, impedindo a surpresa que pretendia fazer ao mestre Luiz. Ele vibrou com a notícia, e almoçávamos com a compenetração que o sabor de distância exigia.

Quase não falamos sobre o Partido e nossas tarefas clandestinas. A sobremesa foi rapadura com queijo e muito saudosismo e emoção. Emoção que aumentou quando Luiz me revelou a grata coincidência: naquela quarta-feira, dia 25, ele estava completando 50 anos de idade. Abracei-o, e ficamos por alguns minutos silenciosos, olhos marejados. Falou-me, então, de Odette e da enorme saudade que sentia dela naquele momento cinquentenário.

O esquema de segurança que o Comitê Central determinara para Luiz era rígido, não permitindo que ele sequer dormisse duas noites seguidas no mesmo local. Seu nome tinha importância para os comunistas, pois a maioria o apontava como o quadro certo para suceder Prestes, o bravo dirigente do Partidão.  Era um líder profundamente respeitado pelos companheiros.

Volto para aquele dia 25 de agosto de 1971, na altura do cafezinho e do licor de jenipapo, quando ele me disse que passara as últimas 12 horas viajando, vindo não sei de onde, sem entrar em detalhes, mas afirmando estar muito cansado. Fez o elogio do cardápio, que lhe saciara a fome, mas disse que precisava estar no Rio de Janeiro nas primeiras horas da manhã seguinte e seu sono era incontrolável. Despedi-me dele quando já embalava a rede branca (outro presente de Emílio Salem). Ao voltar do trabalho ele ainda dormia. No chão, ao lado dos jornais Diário e Tribuna da semana passada, seu despertador estava armado para disparar à meia-noite.

Danilo Bessa

Danilo Bessa

 

Quando acordei no outro dia, encontrei o bilhete repetindo o agradecimento, com o aviso de que nos veríamos na próxima reunião. E voltamos a nos encontrar em várias ocasiões. Sempre era bom rever Luiz, uma aula de humanismo.

Ainda hoje sonho, de vez em quando, conversando com ele, que permanece na defesa intransigente do diálogo com os cristãos. Diferente de mim, ele não envelheceu: a fisionomia é exatamente a mesma, talvez até porque não saiba que o mundo socialista mudou e que aqui houve uma eventual interrupção na luta pelos nossos ideais.

No início de 1974, encontrava-me preso num porão do DOPS paulista, quando um carcereiro comunicou eufórico que quase toda a direção do PCB estava na cadeia. Entre eles, o meu amigo Luiz Ignácio Maranhão Filho. – “Todos vocês vão morrer, seus filhos das putas” – sentenciou o sarcástico policial travestido de carrasco.

Em abril do mesmo ano, ele foi covardemente assassinado, sob tortura, porque lutava pelo dia em que ninguém no mundo irá dormir com fome. “ Esse dia há de vir”, até mesmo pela efetiva contribuição – uma vida – que Luiz deu nesse sentido.

Da próxima vez que sonhar, vou aproveitar e dizer a ele que, apesar de tudo, o sol continua brilhando.

 

Danilo Bessa é advogado. O texto é a apresentação do livro Luiz, o Santo Ateu, de Heloneida Studart, EDUFRN, 2006.

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