De um poeta mossoroense para o Almanak de Macau

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Adalberto Amorim Almanak capaO Almanak de Macau reuniu contribuições de poetas e escritores de todo o Rio Grande do Norte. Era 1909 quando o Almanak de Macau foi impresso. De Mossoró, dentre as preciosas contribuições, veio a poesia terna de Martins de Vasconcellos.

 

O Rouxinol

                                                        (A Raymundo Jovino)

 

Original para o “Almanak de Macau”

 

Todas as tardes quando a aragem vinha

Beijar do Tamarindo a verde fronde,

A’ luz purpúrea de um sol que esconde,

          A canora avezinha,

Sobre a ramagem que o muro ensombrava

        Seu canto modulava.

 

Havia nos seus trillos maviosos

– Uma rota idylica entoando –

Tanta harmonia, os corações domando,

        Sons tão melodiosos,

Que o passaredo ouvindo-o extasiava,

       ‘Té que a noite chegava! …

 

E mal vinha de lèste o casto alvor

Da madrugada em rocios diluída,

Já no telhado ou n’ arvore florida,

       O fúlvido cantor

Seus lêdos trinos doces desferia

        Sibylando.

 

Fazia gosto ouvil-o! O seu gorgeio

Tinha a doçura da criança rindo.

Como se risse o próprio Tamarindo

     E, n’um pueril anceio,

Quando a tarde findava ou vinha o dia,

      A natureza ria! …

              ***

Mas um dia não veio … e outros passando…

Jamais, jamais seus hymnos desferiu! …

E eu perguntei: — “O Rouxinol fugiu? …

     Mas, que tristeza, quando

Responde-me um visinho em tom pacato:

– Pergunte àquelle gatto! …

               ****

Sempre o carrasco amordaçando a presa,

Que nem sempre é culpada! (Isto è da sorte!)

E o pobre musico, a cantar, vil morte

     Deu-lhe a manha e fereza

Do astuto gatto! … Infeliz ave! Emfim,

      Há muito gatto assim …

 

Mossoró, maio de 1908

                                                              Martins de Vasconcellos

Páginas 25 e 26 do Almanak de Macau 1909

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