Encontro com a poesia – Interlúdio [I]

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Poeta Horácio Paiva em abril de 1986. Foto E. Munhoz

Poeta Horácio Paiva em abril de 1986. Foto E. Munhoz

ENCONTRO COM A POESIA  –   INTERLÚDIO (I)

                                                            (Por Horácio Paiva)

                                    TRÊS SONETOS RENASCENTISTAS FRANCESES

             Na sequência das citações e arquivos apresentados, notadamente sobre o neoclássico Camões e o clássico latino Horácio (e a sua filosofia do carpe diem e do vivere in aurea mediocritate), trago estes três belos e sugestivos sonetos (um deles, o de Ronsard, célebre, muito reproduzido e comentado ao longo dos anos) de expoentes do renascimento literário francês, em magnífica tradução de Guilherme de Almeida, casando-os com os textos já mencionados:

 

 

 

 

 

 PierredeRonsard1620PIERRE DE RONSARD (1524-1585)

             SONETO A HELENA

 Quando fores bem velha, à noite, à luz da vela,

Junto ao fogo do lar, dobando o fio e fiando,

Dirás, ao recitar meus versos e pasmando:

Ronsard me celebrou no tempo em que fui bela.

 

 

E entre as servas então não há de haver aquela

Que, já sob o labor do dia dormitando,

Se o meu nome escutar não vá logo acordando

E abençoando o esplendor que o teu nome revela.

 

Sob a terra eu irei, fantasma silencioso,

Entre as sombras sem fim procurando repouso:

E em tua casa irás, velhinha combalida,

 

Chorando o meu amor e o teu cruel desdém.

Vive sem esperar pelo dia que vem;

Colhe hoje, desde já, colhe as rosas da vida.

 

joachim du bellayJOACHIM DU BELLAY (1522-1560)

             SONETO

 Ditoso o que empreendeu de Ulisses a jornada,

Ou como esse outro que conquistou o tosão

E que após retornou, com mais tino e razão,

A viver entre os seus a vida descuidada.

 

 

 

 

Quando é que hei de rever de minha aldeia amada

O fumo dos casais; do tempo em qual sazão

Hei de a sebe rever da mui pobre mansão

Que uma província me é, a que igual não há nada?

 

Mais me apraz o meu lar avoengo, venturoso,

Que de romano paço o frontão audacioso;

Mais que o mármore duro apraz-me a ardósia fina,

 

O meu Loire gaulês, mais que o Tibre latino,

Mais meu pobre Liré que o monte Palatino,

Mais que a brisa marinha a doçura angevina.

 

Cristophe PlantinCHRISTOPHE PLANTIN (1520-1589)

             A FELICIDADE DESTE MUNDO

 Ter uma casa boa, limpa e bem curada,

Um variado jardim de canteiros cheirosos,

Frutos, bom vinho, filhos pouco numerosos,

Possuir só, sem alarde, uma esposa afeiçoada;

 

 

 

Não ter contas, amor, questões, demandas, nada

De partilha a fazer com parentes cuidosos,

Com pouco se fartar, descrer dos poderosos,

Seus desejos regrar por pauta moderada;

 

Viver tendo franqueza e não tendo ambição,

Entregar-se sem pejo à sua devoção,

Domar suas paixões, contê-las com acerto,

 

Conservar a alma livre e o julgamento forte,

Rezar o seu rosário enquanto medra o enxerto,

É esperar docemente em sua casa a morte.

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 NOTA:

             Não poderia deixar de registrar a presença, neste sarau  –  embora passados mais de trezentos anos dos titulares franceses convocados  –  de William Butler Yeats,  grande poeta irlandês moderno, a perpetuar o tema (ampliando sua perspectiva, dando-lhe conotação mística), no seguinte poema traduzido pelo nosso Péricles Eugênio da Silva Ramos:

 yeatsWILLIAM BUTLER YEATS (1865-1939)

             QUANDO FORES VELHA

 Quando já fores velha, e grisalha, e com sono,

Pega este livro: junto ao fogo, a cabecear,

Lê com calma; e com os olhos de profundas sombras

Sonha, sonha com o teu antigo e suave olhar.

 

 

 

 

Muitos amaram-te horas de alegria e graça,

Com amor sincero ou falso amaram-te a beleza;

Só um, amando-te a alma peregrina em ti,

De teu rosto a mudar amou cada tristeza.

 

E curvando-te junto à grade incandescente,

Murmura com amargura como o amor fugiu

E caminhou montanha acima, a subir sempre,

E o rosto em multidão de estrelas encobriu.

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