Uma professora do Duque

0

AD, 1950, GE Duque de Caxias, Arquivo Anaide Dantas

AD, 1950, GE Duque de Caxias, Arquivo Anaide Dantas

Das lembranças, das mais remotas, foi buscar na noite dos tempos a imagem do pai com os pequeninos – ela, Raimundinho e Pretinha – na rede, na sala da casa antiga do Porto do Roçado, balançando e cantando para eles uma canção de palavras difíceis, daquelas que só tinha no dicionário. Castro Alves:

 Oh! Lágrimas e pérolas! – aljofares

Que rebentais no interno cataclismo,

Do oceano – este dédalo insondável!

Do coração – este profundo abismo!

 Doces lembranças. Da mãe, a organização e a parcimônia na condução do lar e do pai a ternura e o gosto pela poesia. Ficou professora e nunca mais deixou de ensinar. Hoje corrige a gramática dos da casa. Olha a concordância! Vive alertando.

 Eram tempos da Macau da areia. Vento e areia. E nas noites de cruviana e frio, o pai contador de histórias, contava. Ele e os irmãos Paiva do Catolé do Rocha na Paraíba cruzaram todo o Rio Grande do Norte margeando o Piranhas e Assu tangendo o gado que restara da grande seca dos oitenta. Seguiam o conselho dos capuchinhos: “Caminhem, caminhem… até encontrarem as bandeiras verdes!” Ajoelharam e se benzeram ao avistarem os manguezais. O gado estava salvo. Mangue e água das cacimbas do porto.

 Depois, construíram tudo. Casa, curral, roçado: algodão, feijão, milho, melancia, melão. E o porto ficou do Roçado e a rua dos Paivas. Marchante, vendia no mercado a varejo e em grosso para os vapores da Cia  Comércio e Navegação. Não enricou, mas criou os filhos, quinze ao todo.

 

Tempo de Macau da areia. Porto do Roçado na década de 1940

Tempo de Macau da areia. Porto do Roçado na década de 1940

Eram tempos que ainda tremeluziam candeeiros nas casas de Macau. Na noite adentro, já avançada, no descampado à frente da casa, caminho para a salina do porto, noite sim, noite não, ouviam Pedro do Tronco que voltava para casa cantando boleros tristes que falavam de paixões, traições e mágoas. Era para espantar o medo, dizia.

 Ainda as lembranças de menina. Seu vizinho Zé Sarrambeca que criou um pastoril para a filha e as meninas do Porto do Roçado. Dançou e cantou feliz. Foi um deslumbramento.

 Criava passarinhos. Muitos. Limpava as gaiolas, trocava a água e abastecia de grãos. Um dia teve que abandoná-los. Chorou ao deixar a graúna, apegara-se demais ao pássaro.

 A água, sempre uma dificuldade. Havia noites que o pote ficava sem água até para beber. A melhor água de beber era de Ponta de Pedra, sua mãe sempre recomendava. Para tomar banho era a água das cacimbas das Imburanas. Vinha tudo de barco. 

 Num dia de muito sol viajou para o Recife no Iraty. Inesquecível. Ela, a irmã Lulu e a amiga Sabina. O mar gigante azul, azul, alçava o vaporzinho até onde não podia para quase engoli-lo depois. Teve medo, muito medo, mas não ia aperrear os adultos.

 Devota desde menina, católica fervorosa, foi para a Irmandade dos Anjos de dona Maroca China. Mais tarde iria para a Confraria de Nossa Senhora do Rosário. Admirava o Monsenhor Honório, um homem justo e solidário. Gostava da pregação do Padre Paulo Herôncio, cheio de imagens, teatral. E nunca esqueceu sua poesia em homenagem a Barreiras:

 … e as copas dos coqueiros de palhas farfalhantes,

além branquejam morros, e as praias distantes…

 Por fim professora e o orgulho dos alunos doutores de duas gerações: Amaro Marinho;  João Evangelista e Haroldo do Vale. Professora substituta no Duque de Caxias, depois, professora da Escola dos Operários. Em seguida professora da Escola Reunida Porto de São Pedro e depois regente de classe no Duque de Caxias. Um dia, próximo do fim do ano, um aluno, rapazinho de 17 anos, aprendiz de marceneiro fez e levou um quadro negro de presente para ela. Foi o melhor presente que recebeu como professora.

 Muitas dificuldades para a educação. Um governo entrava e fazia, outro entrava e desfazia. De giz a salário tudo faltava. Os alunos compravam o papel para fazer os exames. Ela e Dona Alzira a diretora se desdobravam para a escola funcionar. Certa vez, numa cerimônia de formatura nas Escolas Reunidas, a mesa cheia de autoridades e o páteo repleto de alunos e familiares, um aluno seu, que queria ser aviador, pede ao final da cerimônia para declamar uma poesia que fizera em homenagem às professoras.  Concedida a autorização, o pequeno e esperto estudante vai à frente e após agradecer  declama sorridente:

Adeus Dona Alzira e Dona Hilda

Até o ano que vem

Dona Alzira e Dona Hilda

Com quem gastei meu vintém!

 Este protesto bem humorado de uma criança é sua melhor recordação e até hoje narra o episódio com os olhos brilhando de felicidade.

 Recorda-se do dia que foi com Dona Alzira pedir para o prefeito Venâncio Zacarias mandar reformar um prédio para as Escolas Reunidas do Porto e foram muito bem atendidas por ele. A reforma foi realizada e fizeram uma bela festa de inauguração. Diz que Venâncio era um homem inteligente, muito caridoso e honesto, “um homem que não enriqueceu com a política”.

AD, 1970, Grupo Escolar Duque de Caxias, Ad

AD, 1970, Grupo Escolar Duque de Caxias, Ad

 

 Sofreu muito quando do golpe militar de 1964 ao saber dos métodos cruéis que foram usados para prender os sindicalistas e políticos de Macau, pois sabia que eram todos homens de bem e que não mereciam ser presos.

 Viveu a angústia de ver o velho prédio do Duque ir se deteriorando sem que o poder público tomasse providência. Quando a situação ficou perigosa, deixaram o prédio e saíram por Macau em busca de locais onde pudessem instalar uma sala de aula que fosse. A Escola não parou. Era um compromisso da diretora Dona Lourdes Ferreira e das professoras. Um dos locais onde a escola funcionou foi o grande prédio de Joaquim Amaro, na praça da Conceição.  

 Nascida Hilda Alves de Paiva em junho de 1915, tornou-se Hilda Alves Bezerra em novembro de 1950 ao casar-se com Luiz de França Bezerra. Foram quarenta anos de convivência feliz até o seu falecimento em setembro de 1991. Do marido ressalta a retidão de caráter, o senso de justiça, o companheirismo e a solidariedade. Lutaram muito para formar os filhos. A sina. Casada não se livrou da faina com o gado, pois seu marido, assim como seu pai, gostava de gado.

 Luiz Bezerra, além de Fiscal de Rendas era criador e possuía uma grande vacaria na Rua Padre João Clemente e toda vez que ele era transferido para outra cidade, em razão das disputas políticas entre dinartistas e aluizistas, era ela que assumia os trabalhos da venda do leite.

 Em junho de 1968 aposentou-se como Regente de Classe de ensino primário do quadro do magistério público do Estado, lotada no Grupo Escolar Duque de Caxias.

 Em 2000 seu estado de saúde exigiu os cuidados de uma cidade grande e teve que deixar Macau. Relutou muito para mudar-se e só fez quando não tinha mais jeito mesmo. Rebate de pronto qualquer insinuação contra Macau e Mossoró. Macau por ser sua terra amada e Mossoró porque diz que seu marido sempre foi bem recebido pelos mossoroenses.

 Hoje aos 91 anos vive no Barro Vermelho em Natal. E em meio aos sons dos bate-estacas  que insistem em invadir o bairro, ela ouve além de pardais e bem-te-vis, uma graúna que vem cantar todo dia no jambeiro.

 páginas 107/110 do livro Textos de Macau, de Claudio Guerra 

 

Deixe uma resposta