Estivadores: das recordações de Chico de Neco Carteiro

0

Estivadores

 

Sindicato dos Estivadores de Macau em 1974

Sindicato dos Estivadores de Macau em 1974

Operários que não sobreviveram à construção do Porto Ilha. O progresso nem sempre simboliza o desenvolvimento total. Termina muitas vezes, por modificar costumes, marginalizando o trabalho de chefes de família, subtraindo-lhes o ganha-pão. As cidades de Areia Branca e Macau são bem um exemplo disso.

Por motivos óbvios, vamos falar do Sindicato dos Estivadores de Areia Branca. De gente laboriosa que teve seus dias de glória ali na sua sede, da Rua Almino Afonso com a Rua Silva Jardim, hoje respectivamente Avenida Manoel Avelino e Francisco Ferreira Souto.

Quantas lutas foram travadas na sua velha casa, para eleger uma nova diretoria. Era algo que a cidade acompanhava com interesse. Mesmo militando em partidos políticos divergentes, seus presidentes souberam conduzir a entidade por um caminho de união e respeito à soberania da classe. E aqui se faz justiça a alguns dos seus  líderes como Pedro Pereira, Luiz Gabriel, Manoel Praxedes, Pedro Rodrigues , Luiz Lopes.

Bem estruturado e de uma organização invejável, procurou-se, através de um rodizio, não privilegiar associados na distribuição de tarefa a bordo dos grandes navios. O filiado tanto trabalhava num vapor pequeno quanto num grande. Naquele tempo, os cargueiros conduziam de 4 a 7 mil toneladas. Não quer dizer que não houvesse navio com maior capacidade. O Mandu, do Lloyd Brasileiro, carregava até 11 mil toneladas. Tal cargueiro, salvo engano, teve outros nomes. Não sei se com o nome de Comandante Martini terminou seus dias encalhado no lamarão de Macau.

Existia entre os associados a figura do capataz, que orientava a distribuição da carga nos porões do vapor. Era pessoa de confiança do agenciador do cargueiro, sem constranger a autonomia da classe. Assim, Tião Duarte era o homem de confiança da Companhia Comércio  e Navegação, como Júlio de Noca era da Costeira, Antonio Pixico do Lloyd Brasileiro, Chico Duarte de Wilson, Sons & Co. Ltda., e Manoel Maria de Salicultores de Mossoró, Macau Ltda.

 

Barcaças e tinas no lamarão de Macau

Barcaças e tinas no lamarão de Macau

A Agência, responsável pela carga, requisitava os operários ao Sindicato. Fosse sal a granel, seis homens, também chamado terno, eram designados para o serviço de cada porão: 1 contramestre, 2 guincheiros, 2 “viradores” [esse o termo usado] de tinas e 1 portaló. As tinas, nas suas capacidades, variavam de 500 ou 580, outras de 720 e algumas de 900 quilos. Saliente-se que o sal caído num só local fazia uma grande ruma. Daí a necessidade da figura do “rechegador”, que acomodava o produto no porão do navio.

Sendo sal ensacado, o número de operários aumentava para oito, salvo engano. Em vez dos 2 viradores das tinas, 4 desciam para o empilhamento da sacaria no porão. Os sacos podiam ser  de 30 a 60 quilos.

Nos seus tempos áureos, o Sindicato manteve na própria sede um salão de festa, para deleite dos seus associados. Um bloco carnavalesco, o “Nem queira saber”, animou por vários anos o carnaval de Areia Branca. Um time de futebol, o Netuno, também era mantido pela entidade classista.

“Baguinhos”, assim chamados, eram rapazes jovens requisitados quando de maior movimentação de navios no porto. Terminavam se associando ao Sindicato. O sindicato de Josué Cabral, de “Mangazena”, de Ulisses, de Manoel Bolacha, de João de Pixico, de “Chinha”, de Valdim de Cazumbá, de Camelo, de João Leopoldina, de “Cicim” Cabral, Zezinho Viega, de Caubói, Nelson e Geraldo de Mãezinha, de Mirabeaux, de Zé de Izabel, de Cabo Abílio, de João Gama, de “Brando”, de “Pequenino”, João Simplício, de Chico Ferreira, de Cisso Martírio, de Louro, de Manoelzinho Chagas, de Deusdete, de Cabuzé e de tantos e tantos outros que elevaram o nome de Areia Branca.

Páginas 89 a 91 do livro Becos, ruas e esquinas do escritor Francisco Rodrigues da Costa.  

Deixe uma resposta