Odorico Paraguaçu não morreu!

Odorico Paraguaçu não morreu e Sucupira é aqui, é ali, é acolá!

“O Bem Amado”, do escritor Dias Gomes retrata as coisas do nosso país. A obra é da década de 60, mas, é como se fosse de hoje. Tomando como cenário a cidade de Sucupira  – que poderia ser qualquer outra, Macau, Alto do Rodrigues ou Paraguaçu Paulista – com seu prefeito, o Odorico Paraguaçu e outras personagens com as quais cruzamos na rua a toda hora, retrata o cotidiano repleto de “marmotices” e “sabidências”.

Primeiro, “O Bem Amado” foi uma peça teatral montada em 1969, depois novela de grande audiência na Globo em 1973 – a primeira em cores na tv brasileira. Virou seriado de tv em 1980 fazendo grande sucesso e sofrendo aqui e ali os cortes da censura do General Figueiredo, o último dos ditadores. Agora está virando filme na direção de Guel Arraes [diretor do Auto da Compadecida]. No elenco, o ator Marcos Nanini [o Lineu da Grande Família] no papel de Odorico. O filme deve estrear ainda este ano.

Dias Gomes [1922-1999], o autor de “O Bem Amado” era um homem de grande sensibilidade e soube captar muito bem a luta do homem simples e trabalhador contra as engrenagens que a burguesia foi criando para a manutenção do poder. Ele soube filtrar o essencial para levantar a discussão em torno da miséria e da fome e dos direitos do cidadão que nunca são respeitados por essa elite representada por Odorico.

É fácil ver os tipos de Sucupira em nossa cidade. É só prestar atenção.  Odorico é corrupto e sua palavra não vale um risco n’água. Nunca cumpre o que promete. Quer todos sob a sola do seu sapato. A liturgia do cargo exige! Sente feliz com isso, e imagina até que é rei.

Junto de Odorico, também existem aqueles que se vestem de honestos, penteiam-se como honestos e caminham como honestos, tudo para esconder as falcatruas em que estão metidos até os ossos. Outros posam de bons moços, cidadãos acima de qualquer suspeita e, qualquer descuido, “tira a castanha com a mão de gato”. Outros agem como a história da uva e da raposa, desdenham, mas querem. E como querem! É só oferecer. E Odorico sabe as fraquezas e necessidades de cada um. E por isso reina absoluto.

E a oposição contra Odorico. É a mesma que um dia já foi situação. Cheia de armações e traquinagens, desanca o adversário até não mais poder e espera que o povo lhe devolva o trono na próxima eleição. É só isso que quer do povo. E “talqualmente” e “deverasmente” acusam-se mutuamente de “demagogista” e “sem-vergonhista”. Mas, se houver um acordo onde possam lucrar, se juntam como amiguinhos desde o berço e se abraçam, se beijam, vão às lágrimas.  E os que estão “fora” do acordo são agora os “safadistas” e inescrupulentos”.

Uma das cenas mais interessantes do seriado foi quando Odorico recebeu uma denúncia de que Sucupira estava sendo atingida por uma rede de “muambistas, cocainistas e maconhistas” e resolveu fazer uma operação “desentoxicante e desintoxicológica”, e só encontrou açúcar na carga suspeita. Em Macau, é certo que se encontre sal. Muito sal.

Claudio Guerra,  publicado na Folha de Macau de junho de 2009