Uma poesia de Nair Damasceno

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A Janela Aberta

 

Apenas aos domingos

A janela era aberta

E os raios do sol

Iluminavam o quarto,

Sua luz era como o grito

De um recém nascido

Anunciando que a vida chegara.

 

Ilha da Cambuba, Macau RN, foto: Getúlio Moura

Ilha da Cambuba, Macau RN, foto: Getúlio Moura

Do outro lado da janela aberta

A estrada de barro, poeirenta,

Os corais, a praia deserta,

Uma nuvem no céu, cinzenta.

O lamento de uma cigarra,

As dunas, o cajueiro,

As jangadas no horizonte,

O bailar das palhas do coqueiro.

 

O lençol branco na cama,

O jarro com flores sobre a mesa

Com sua toalha bordada

Em seu ar de realeza.

 

Homens passando para o jogo do domingo

No campo de areia da praia,

Mulheres segurando as saias.

 

O som dos atabaques

Fugia de seu esconderijo,

E um canto suave, agudo

Discretamente invadia a sala

Numa súplica que só hoje entendo:

 

-“Por favor, me abrace,

Atravessei esses mares,

Subi e desci muitos rios

E preciso de abrigo,

Não posso morrer de frio”!

 

Um rádio antigo tocando,

O canto do mar, o vento,

A voz das pessoas,

Pedaços de mim,

Retratos da vida

Descolorindo

Na lembrança da janela aberta

Somente aos domingos.

 

Nair Damasceno [ndapaiva@yahoo.com.br]

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