Retorno, recordações do poeta Getulio Vargas

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  Retorno                                            A Regina Barros

Sempre quando em sonhos ardo,

saltam-me a borbulhar, em delírio, 

imagens, fantasias

dos passeios por caminhos distantes que percorri,

confundindo-se,

unindo a estrada de sal de Alagamar

às estradas de mangues de Olinda…

  Brincando, corro e me escondo no porão do Duque de Caxias

tão cheio de almas como sou agora.

Fujo dos morcegos do alto da matriz

rumo ao bucolismo das vilas às margens do rio…

empunhando bandeiras de corsários,

da murada do nosso forte,

sou perigoso, bandido,

moleque da Benjamin Constant.

Os tamarineiros eram sombras,

farta fronde que guardava segredos de estado,

táticas guerreiras,

tão verdadeiras, meu Deus,

tão verdadeiras…

O primeiro beijo ardente

não adormeceu comigo

nem se perpetuou em mim!

Perdeu-se no escuro da sala do Cine Éden.

 

Em devaneio, saltam as imagens do rio

na festa da senhora dos Navegantes,

e rosas quase murchas, à tarde,

a colorir o céu pelo qual caminha,

todos os anos,

piedosa, a virgem da Conceição,

em seu colo de mãe,

o assustado Jesus menino.

Minh’alma de estórias infantis

vagueia, baila, freme,

como as dezenas de bandeiras coloridas da “Navegantina”

tão delicadamente carregada

como se [aos meus olhos] fosse de cristal…

Sempre quando em sonhos ardo,

saltam-me vidas que já são passado,

tão presentes,

que as carrego comigo

em um imenso baú

transbordando de lembranças,

que carinhosamente

chamam: Saudade…

Getúlio Vargas Maia Barros,    Jornal de Macau, nº 4, outubro de 1993.

                                    

 
 

 

  

         

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