E o Teatro Hianto de Almeida, como vai?

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Este texto foi publicado em 2008 na imprensa potiguar por ocasião dos 50 anos da Bossa Nova. Eu considero a Bossa Nova uma das coisas que nos alegra a vida. Este texto é um grito de um cidadão macauense contra os desmandos cometidos pelos donos do poder em Macau e suas falsas homenagens.                 De Claudio Guerra para o baú de Macau

50 ANOS DA BOSSA NOVA – O QUE NÃO COMEMORAR

De como desabou e foi saqueada uma obra em homenagem ao precursor do movimento.

 

Foto de autor não identificado - Cyber-Macau, setembro de 2012, Teatro Hianto de Almeida em Macau

Foto de autor não identificado – Cyber-Macau, setembro de 2012, Teatro Hianto de Almeida em Macau

1958. Surge no Brasil o gênero musical que se tornaria mundialmente famoso e que, ainda agora em 2008, 50 anos depois, é um dos produtos mais exportados pelo País: a Bossa Nova. Comandada pelos músicos Tom Jobim e João Gilberto, as canções do novo movimento ganharam interpretações de nomes com projeção internacional, como Frank Sinatra e Stan Getz. Para comemorar o cinqüentenário do movimento, vários shows serão realizados e CD’s e DVD’s lançados pelos músicos remanescentes, como Roberto Menescal , Marcos Valle e Edu Lobo. O que pouca gente – pouca gente norte-riograndense, inclusive – sabe é que esse marco da Música Popular Brasileira tem suas origens em Macau, na região salineira do nosso Estado. O músico Carlos Lyra, em show realizado no Teatro Alberto Maranhão, em Natal, contou que um rapaz magro, alto, de óculos, com aparência de médico, teria ensinado o então novo estilo de tocar samba no violão a Jobim e Gilberto. Esse rapaz se chamava Hianto de Almeida, natural de Macau/RN. João Gilberto, considerado “O pai da bossa nova” viria depois a gravar Meia Luz, de autoria de Hianto, em parceria com o humorista Chico Anísio. Outra composição da dupla – Conversa de sofá – serviu para que um iniciante Jobim elaborasse seu primeiro arranjo musical.

 Macau, cidade natal de Hianto, contava até pouco tempo, com um teatro que levava seu nome. Justíssima homenagem, se, no jubileu de ouro do movimento, tal obra estivesse de pé. Construído no prédio do antigo Cinema Dois Irmãos, o teatro, inaugurado em 2003, desabou em 2007. Diferentemente da obra criada por Hianto, a que imortalizaria seu nome ruiu em pouco mais de três anos.

 Adquirido – mas não pago – pelo Município de Macau em 1989, pelo então prefeito Afonso Lemos, o prédio só foi quitado em 2002, depois de acordo judicial com o antigo proprietário, na gestão do ex-prefeito José Antônio Menezes. Reformado e adaptado, foi inaugurado em 16/08/2003, com uma apresentação da companhia de dança natalense Gaia e um show do cantor Moraes Moreira. Nessa data, placas de revestimento do teto já estavam descolando. Segundo pessoas que trabalharam na obra, foram colocadas pontas de viga nas paredes laterais do prédio. Nessas pontas, foram assentadas as tesouras que sustentavam o telhado. O peso da cobertura seria o responsável para que as tesouras se mantivessem nos devidos lugares. Entretanto, a ação do vento e das chuvas provou o contrário. Resumindo: faltou parafuso na hora para fixar a cobertura às vigas das paredes? Pode-se dizer que sim. Pelo menos na cabeça dos responsáveis pela obra. R$ 900 mil em verbas federais e municipais jogados, literalmente, ao vento. Estão irrecuperáveis as poltronas, as cortinas e os blackouts, que ficaram ao relento, expostos, por exemplo, às fortes chuvas que caíram sobre a cidade em abril passado. Com uma lâmina d’água de quase 1 metro em sua sala de espetáculos, o Teatro hoje tornou-se um foco em potencial do mosquito da dengue. Todo o material de som e luz – mesas de comando, refletores, canhão de luz, caixas de som, um projetor, computadores, etc. – avaliado em cerca de R$ 300 mil desapareceu misteriosamente do prédio.

 Apesar do nome que leva, o Teatro Hianto de Almeida nunca recebeu uma apresentação de bossa nova. Administrado desde a sua inauguração por um colunista social, exibia freqüentemente sessões de filmes de qualidade duvidosa (estranhamente filmes que se encontravam em cartaz na capital, na mesma época!) e esporádicas apresentações teatrais e musicais. Nos aniversários em que esteve de pé recebeu – modo de falar: os shows eram realizadas em um palco fora do teatro – os cantores Chico César e Joana. Houve ainda o lançamento de um CD com músicas de Hianto, interpretadas por macauenses, não necessariamente músicos. Entre eles, uma irmã médica do prefeito José Antônio.

 Secretário de Cultura por cinco meses, entre janeiro de maio de 2005, o produtor cultural João Eudes Gomes já havia alertado por escrito, ao atual prefeito Flávio Veras, sobre as condições do prédio do Teatro. Teve ainda a feliz idéia fazer uma relação de todo o material recebido no começo de sua gestão e entregá-la a Veras. Até as xícaras de cafezinho foram relacionadas. Essas peças integram hoje uma Ação Popular, movida por Eudes contra o Município de Macau, pela reestruturação do Teatro. Espera-se que assim a cidade volte a ter sua arena cultural em condições de receber espetáculos. A preocupação seguinte seria com a qualidade desses espetáculos, uma vez que a Cultura municipal hoje é capitaneada por Francisco Paraíba, um dos maiores responsáveis pela descaracterização do carnaval macauense, transformado numa micareta de quinta categoria, onde existem apenas dois blocos, patrocinados pelo governo municipal, (Macau já teve pelo menos vinte agremiações participando anualmente, nos anos 80) e predominam bandas cearenses que tocam axé.

 Enquanto isso não acontece, os 50 anos da bossa nova “vão passando ao largo” na terra do seu precursor. A cidade que viu seu teatro nascer na gestão de um prefeito que teve recentemente seu sigilo bancário quebrado devido a acusações de fraudes em licitações, falsidade ideológica e recebimento de propina (Menezes), é hoje administrada por um político nascido em Assu (Veras), que provavelmente nem se dê conta da importância de Hianto de Almeida para a música brasileira e mundial. Tivesse Hianto nascido em uma cidade com governantes mais preocupados com sua cultura, certamente teríamos um “Auto da Bossa Nova” no calendário festivo municipal.

 Volta à tona a velha teoria: um povo que tem acesso à arte e à cultura termina por começar a pensar e criar uma consciência política, passando a escolher melhor os seus representantes. A quem interessa isso? Então tome “alô, tô num bar, chego já, tô aqui comendo água …”

 Hianto faleceu em 1964, aos 40 anos, e foi sepultado em Macau. Deixou inúmeras composições gravadas e certamente hoje teria projeção nacional, tal qual seus ‘pupilos’ Tom Jobim e João Gilberto, não tivesse sido acometido de um câncer. Bom, mas o texto seria sobre a comemoração dos 50 anos da Bossa Nova. Então, ao menos terminemos comemorando. Salve Hianto de Almeida! Vida longa à Bossa Nova! Viva Roberto Menescal (que também teve passagem pele terra das salinas), Carlos Lyra, Vinícius de Moraes, Johnny Alf, Edu Lobo, Nara Leão, Tom Jobim, João Gilberto e tantos e tantos outros. E, salvem, por favor, o Teatro Hianto de Almeida!

Gabriel Araújo Nunes

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