São Lourenço em Macau

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Brincadeira de criança, soprávamos na orelha uma da outra. Desaforo grande. Estávamos  naquela fase em que acreditamos que homens, santos e anjos estão todos na terra, juntos e misturados. Se não os vemos é porque ainda não temos a fé necessária para vê-los, pois somos crianças e às crianças não é dado ver tudo.

Igreja NS da Conceição, década 1950.arq. FM

Igreja NS da Conceição, década 1950.arq. FM

Mas, naquele dia, na porta da igreja de Macau, cuja frente é para um o rio que é um pouco rio e um pouco mar, à saída da missa mamãe quis nos apresentar a São Lourenço.  Era um velhinho de cabelinhos de algodão e uma barbinha comprida, branquinha, branquinha. Tivemos medo, muito medo, pois a brincadeira “do sopro”  impacientava mamãe que clamava:  Valei-me São Lourenço, Valei-me São Lourenço! Venha dar um jeito nessas meninas para que parem de brigar!

Por isso, naquele dia, fizemos carreira grande descendo as escadarias e o pátio da igreja e atravessamos a rua e a praça que ainda não era Monsenhor Honório que continuava vivinho “dando batido” nos infiéis e fomos nos esconder junto à margem do rio, nos sujando na lama escura da maré. 

Do nosso esconderijo improvisado vimos São Lourenço se despedir de mamãe e caminhar com dificuldade até dobrar a esquina.  Voltamos assustadas mesmo mamãe dizendo-nos que se tratava de um amigo, um mestre de barcaça que não via há muitos anos.  Para nós restou a certeza que era São Lourenço.

De Claudio Guerra para o baú de Macau [Das memórias dos amigos macauenses]

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