A Psicologia da Arte, do poeta José Saddok aos irmãos

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Bonequinha do Encarnado

Bonequinha do Azul

Bonequinhas do Encarnado e do Azul

 

 

Do poeta José Saddock uma feliz homenagem aos seus irmãos. 

Enoch eu só conheci pela sua arte, um belo bico de pena
da faina dos trabalhadores das salinas na sala da gerência 
do Banco do Brasil em Macau. 
Shirley, Sila, também artista plástica, é amiga desde 
quando cheguei em Macau e a conheci através de minha 
companheira Maria do Rosário. Nos idos de 1982 conheci 
o seu ateliê junto ao Museu do João de Aquino. 
As bonequinhas que ilustram esta postagem é criação de Sila 
e as guardamos com muito carinho, pois é um registro 
da amizade nascida e cultivada no delta luminoso de Macau. 
					                     De Claudio Guerra para o baú de Macau

Psicologia da Arte

Aos meus irmãos Enock e Shirley (Sila) Albuquerque.

           I

Não é a paisagem que muda,
mas quem a vê.

A xícara sobre a mesa
não molha o corpo
nem aquece a vida,
mas o café.

A xícara sobre a mesa
não é paisagem,
nem a chuva sobre o corpo,
mas o corpo.

A forma em si
não se revela,
não basta vê-la
é preciso criá-la...

       II

a faca não vive,
mas corta;
a vida pulsa,
mas não corta.

(O corte da vida
não está na faca,
mas no sangue;

o sangue da faca
não está na vida,
mas na faca.)

A faca e a vida
estão no mesmo corte,
assim como o sangue
está na faca e na vida.

Mas a vida da faca
não está no sangue
e o sangue da vida
não está na faca,

nem na paisagem que não muda,
mas em quem a vê.

     III

(A arte não está no mundo
como o café está na xícara,

mas o café derramado
escorre tanto na tela 
quanto na vida;

mais na vida que na tela,
mais no corpo que na chuva,
mais na mesa que na xícara.)

Quem procura a arte
encontra a si mesmo,
como girassóis sob o sol.

Quem encontra a arte
nega toda imagem,
cega todo espelho.

     IV

O rio não nasce rio,
nasce fonte,
e a fonte assim como o rio,
nasce água.

Cultivar uma semente
é pintá-la,
não com rio
nem com fonte,

mas com água
que vem do rio,
com água
que vem da fonte.

Assim, o pão
que vem do trigo,
vem da água,
não do rio,

e a vida
que vem do útero,
vem da água,
não da fonte.

Águas que deságuam
em outras águas,
tecendo teias,
criando rios;

no tempo
que do tempo faz
a vala comum
de todo vestígio.

Nessa tela
pode o amanhã ser um traço,
o branco virar pássaro,
a sombra o vazio.

Saddock em 3 de julho de 2011

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