Affonso Lopes Ribeiro – Padre

0

http://areiabranca.wordpress.com/2013/08/18/padre-affonso-lopes-ribeiro-o-vigario-sacro-e-profano/

Padre Affonso Lopes Ribeiro, o vigário sacro e profano

agosto 18, 2013 in areia branca

Por Gibran Araújo

 

areia branca palacete 1918Por volta de 1912, celebrava-se em Natal, Ponta Negra, um Retiro do Clero. A certa altura daquele magnífico encontro religioso, debatia-se a questão da castidade sacerdotal, quando o Bispo da Diocese de Natal que o presidia, falando muito seriamente sobre o celibato clerical, dirige-se aleatoriamente a um Padre recém-ordenado para todos ouvirem:

– Padre, se o senhor se encontrasse sozinho, à meia-noite, em seus aposentos de sacerdote e, de repente, surgisse à sua frente uma jovem donzela ardente, apaixonada, desnuda, tentando de todas as formas desviá-lo do seu juramento de Padre, o que o senhor faria?

Ao que o Padre respondeu serenamente: “Ah!, Senhor Bispo! Essa felicidade não é para o Padre aqui, não”.¹

Diante de tal resposta intempestiva e da risada geral contida para o descontentamento do Bispo, o Padre foi então suspenso de ordens por tempo indeterminado, e permaneceu por mais de seis anos lecionando em colégios de Natal, até o fim de sua suspensão ao retornar à Igreja, quando foi “desterrado” para os confins do Rio Grande do Norte, para a pequenina vila de Areia Branca em 1919, ano de recriação da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, onde se tornou o nosso primeiro vigário.

A Freguesia de Areia Branca foi criada por Lei Provincial nº. 976, de 1º de junho de 18869, posteriormente restaurada por ato do bispo diocesano, em 8 de setembro de 1919, desmembrada da Freguesia de Mossoró, e elevada a nossa Capela à categoria de Matriz sob a invocação de N. S. da Conceição.² No dia 29 do mesmo mês e ano, o Rvmo. Pe. Amélio Celestino de Góes, Vigário de Mossoró e encarregado de Areia Branca, como Delegado Especial do Exmo. Snr. D. Antonio dos Santos Cabral e por ocasião da missa das 9 horas, leu o decreto de criação da Paróquia, dando posse ao seu primeiro vigário, o Rvmo. Pe. Affonso Lopes Ribeiro. A paróquia foi instalada, tendo por patrimônios um terreno no lugar denominado “Entrada” e uma casa paroquial³.

Estamos falando do ilustre sacerdote macauense, o Padre Affonso Lopes Ribeiro, nascido no dia 22 de novembro de 1883, filho do rico industrial salineiro, major da Guarda Nacional, Manoel Lopes Ribeiro e de D. Antônia Lopes Monteiro. Em 1906 foi celebrada com muita pompa a primeira missa do sacerdote, em sua cidade natal, após a ordenação. De sua casa de residência até a igreja matriz de Macau, o pai mandou estender um tapete vermelho, sobre o qual Padre Affonso caminhou, para a celebração. Diferentemente, em Areia Branca, se tornou próximo das pessoas mais pobres, com seu carisma e com sua retórica hipnotizante. O Sermão do Padre Affonso, na capela de Nossa Senhora da Conceição, na década de vinte, em Areia Branca, era um verdadeiro acontecimento. Todos queriam ouvir sua palavra. As pessoas, mesmo que pouco ou muito letradas, não lhe poupavam decorosos elogios.4

Entretanto, ele não era exatamente o que se pode considerar um “virtuoso sacerdote”. Era poeta, articulista, compositor, renomado orador do sacro e do profano e, além de tudo, curandeiro homeopata!

Escrevia para o semanário “A Época”, o primeiro jornal da vila, e depois cidade, que circulou de 1919 a 1924, sob direção e responsabilidade de seu fundador, o competente advogado mossoroense Raimundo Rubira da Luz.Pe. Affonso era inteligentíssimo, mas, de um temperamento imprevisível, marcou sua passagem pela paróquia de Areia Branca, por um rico anedotário. Em Areia Branca, ele não só conquistou a amizade e a admiração dos paroquianos, pela sua inteligência e os seus dotes oratórios extraordinários, mas, tornou-se o centro de muitas histórias que o envolveram numa aura de irreverência e algumas vezes, de violência, mesmo.

Outra virtude do Padre Affonso era o seu espírito de independência, seu comportamento não muito convencional, indiferente aos rigores da ortodoxia da santa Madre Igreja, tomando os seus pileques na companhia de barcaceiros e estivadores e distribuindo galanteios entre as moças areia-branquenses.4

Era um homem valente que gostava de dizer: “Na Igreja sou padre, fora, sou homem”. Colocava uma arma de fogo na cintura e procurava agir contra os agressores dos humildes. Era respeitado por todos e seu pedido à polícia para soltar alguém era uma ordem.

Gostava muito de uma cervejinha bem gelada. Quando terminava todas as obrigações religiosas ia para a Casa Paroquial, mandava comprar garrafas de cerveja muito bem escondidas, enroladas em sacos, e ainda prevenia: “Não diga que é para Padre Affonso”. Depois de quatro ou cinco, ele saía com duas garrafas vazias nas mãos batendo uma na outra e cantarolando: “Quem tá bebendo é Padre Affonso, não é da conta de ninguém”.6

Pela precariedade de assistência médica na vila, Padre Affonso, além de sacerdote, era também um homeopata nada ortodoxo que utilizava desde as substâncias e plantas mais estranhas até as técnicas surpreendentemente criativas. Certo dia, pelas dez horas da manhã, apareceu-lhe à porta Toinho de Baleia, barcaceiro e boêmio desabusado.

– Padre Affonso, hic!, eu vim aqui pedir um remédio ao senhor, hic!, que desde manhãzinha eu tou com esse desgraçado desse soluço, hic!, e ele não pára, hic! – Tá certo, Toinho, respondeu o Padre, você fica aqui, encostado na janela, que eu vou lá dentro pegar o remédio e já volto.

Naquele tempo, remédio de soluço era susto. Padre Affonso entrou, enfiou uma bala no revólver e voltou. Colocou o cano da arma a uma distância prudente da cabeça do “enfermo” e detonou em direção à rua, àquela hora, deserta. Com o estampido, Toinho pulou longe:

– Quer me matar, padre maluco? Eu venho lhe pedir um remédio pra soluço e você quer arrancar minha cabeça fora? – Tá bom, meu filho, você pode dizer o que quiser, pode me chamar do que quiser, mas, reparou que o seu soluço já passou? Remédio de soluço é susto.

Ligado pelos laços da amizade e respeito às camadas mais humildes da população, valeu-se de sua inspiração poética para compor muitos versos da poesia composta ou improvisada que foram parar nas marchinhas de Carnaval e nas jornadas de Pastoril. O bloco carnavalesco do povão “Os Democratas” não saía à rua, para seus desfiles anuais, sem antes reverenciar o Padre Affonso, dançando diante de sua residência, que ficava na Rua da Frente.4

O bloco carnavalesco "Os Democratas" em 1924. Fonte da imagem: GURGEL, Deífilo. Ibidem. p. 172.

O bloco carnavalesco “Os Democratas” em 1924. Fonte da imagem: GURGEL, Deífilo. Ibidem. p. 172.

Pe. Affonso compunha música para carnaval, mas também músicas religiosas. Preocupado com o fato de que a Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, criada desde 1911 em pagamento a uma promessa feita por um marítimo, não tinha nenhum cântico de louvor genuinamente próprio, logo tratou de arquitetar em apenas quatro singelas linhas a sagrada canção, quiçá, mais bela da região que se tornara o hino oficial local da Padroeira dos Marítimos, Nossa Senhora dos Navegantes7:

Ó Virgem dos Navegantes Na procela e na bonança Salvai os pobres marinheiros Sê sempre a nossa esperança!

Curiosamente, quase um século depois, na Diocese de Blumenau/SC, o Padre Valdir Stähelin elaborou um bonito Hino de Nossa Senhora dos Navegantes, cujo excerto abaixo apresenta tanta coincidência com o nosso que nos chama a atenção8:

Dá amparo aos navegantes Na procela e na bonança Reconduz o nauta errante Ao bom porto da esperança!

Finalmente em 1923, Pe. Affonso nos deixou saudosos depois de quatro longos anos de grata servidão ao conduzir o rebanho de fiéis areia-branquenses que tanto o admiravam e o respeitavam³. Como prova disso o antigo Beco de João Damasceno, atual popular Beco de Adalberto, oficialmente se chama Rua Padre Afonso Lopes em sua homenagem!

A Paróquia ficou sob orientações do natalense Padre Paulo Herôncio de Mello, então encarregado de Areia Branca e Vigário Coadjuvante de Mossoró e futuro Vigário e Prefeito de Macau. Depois que saiu de Areia Branca, Pe. Affonso esteve como vigário em Taipu, em 1926, e São Gonçalo do Amarante, de 1927 a 1929, ambas as paróquias da Diocese de Natal. Posteriormente, transferiu-se, por sua vontade, para o Estado de São Paulo, onde foi designado para servir em Sarapuí e depois, em Cristais, Diocese de Ribeirão Preto, e Cedral, Diocese de Rio Preto. Adoecendo em Cedral, renuncia ao paroquiato e retorna a Ribeirão Preto, à procura de tratamento para a saúde abalada. Não resistindo aos males que o afligiam, veio a falecer nesta última cidade, no dia 10 de julho de 1937, aos 54 anos de idade e aos 31 de vida sacerdotal4.

Todo dia 15 de agosto, em meio aos cânticos sacros da fervorosa Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, nos passa despercebido, mas em cada lábio puritano que entoa o mantra sagrado de louvor à Virgem, há um pouco de profano na reminiscência criativa do Padre Affonso, bêbado, curandeiro, poeta, galanteador e valente que como ele mesmo dizia: “Na Igreja sou padre, fora, sou homem”!

 

Bibliografia:

¹CASCUDO, Luís da Câmara. Religião no Povo. Imprensa Universitária da Paraíba, 1974. p. 21.

²LYRA, Augusto Tavares de. História do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro. Leuzinger, 1921. p. 364.

³PAZ, Reynaldo de La. A diocese de Mossoró e suas marcantes realizações: resenha e apreciações. Editora Ramos & Pouchain, 1939. p. 169.

4GURGEL, Deífilo. Areia Branca: a terra e a gente. Coleção Mossoroense, Série C, Vol. 1263. Natal/RN, 2002. p. 178 e 383.

5MEDEIROS, Luiz Fausto de. Minhas Memórias de Areia Branca. Coleção Mossoroense, Série C, Vol. 66. 1978. p. 65.

6ROLIM, José Jaime. Resgatando Areia Branca II. Serigrafia IPE. 1998. p. 45.

7MEDEIROS, Jairo Josino de. Silhuetas do Tempo. Natal. 2010. p. 94.

8http://www.diocesedeblumenau.org.br

9CARDIM, Fernando Pereira. IBGE. Coleção de Monografias. Série B. Nº. 25. 1962.

 

Artigo originalmente publicado na sexta edição de O PIRATA – Jornal Cultural da Ilha da Maritacaca, que será lançado no mês de setembro de 2013.


 

 

Curtir isso:

Curtir Carregando…

Deixe uma resposta