Macau: a poesia de Edinor Avelino

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Macau

 

 

Macau, década de 1950.

Macau, década de 1950.

A minha terra, calma e boa, trago-a

nas cismas de saudade que ando atento,

contemplando-a com os olhos cheios dágua,

nos grandes vôos do meu pensamento.

É das mais ricas terras pequeninas,

apraz-me repetir, quando converso:

possui alvas e esplêndidas salinas,

as melhores salinas do universo.

Vejo as ruas compridas, os sobrados,

E em meio á nitidez do azul sidéreo,

Saudando os horizontes afastados,

A alva tôrre do antigo presbitério,

Lembro-a nos dias belos e fagueiros,

Com o seu ambiente ventilado e quieto,

entre papoulas, morros e coqueiros,

na singeleza mística do aspecto.

Lembro-lhe a enseada, o mangue, que pompeia,

um sugestivo ponto de abrigar,

a costa se alongando, o alvor da areia,

o velante farol de Alagamar!

 

Vejo as ribas, por onde, cismarento,

eu costumava demorar-me dantes,

cantando de lirismo e sentimento,

em frente das maretas escachoantes.

Com o anseio de partir, serenamente,

por sobre as ondas turvas e bravias,

cheio de arrojo do meu sonho ardente,

das aventuras e das travessias.,

eu  demorava a meditar, no pôrto,

olhando as velas no afanoso tráfico,

como um piloto concentrado, absorto,

no abismamento do êxtase geográfico!

Plagas dos devaneios, a abençoa,

minha alma, em pobres versos comovidos

Imagem do passado, ilusão boa,

enganosa ilusão dos meus sentidos.

Do que a  beleza estética, o bulício,

a atração da mais linga capital,

sei que ao meu coração é mais propício

o seu recolhimento provincial.

Ilha do bom destino, fantasia,

rosa do litoral belo e risonho,

que , ao doce luar, desmaia e silencia,

espiritualizada para o sonho.

Conduzo-a na retina, por onde ande.

Macau, canção do meu amor, doce ária.

meu sentimento que se tornou grande,

lá na tristeza da angra solitária.

Ninho embalado no rumor da brisa.

Terra de níveas garças e de moinhos.

Cidade nobre, que se prismatiza

entre miragens e painéis marinhos!

que, no amoroso amplexo, ao mar estreita,

na imperturbável paz do seu viver,

sempre fidalga, sempre satisfeita,

disposta para a todos receber.

Trecho da natureza, que decanto,

pôrto das algas, pouso das baleeiras,

ilha saudosa, plácido recanto,

berço das minhas afeições primeiras,

a minha terra calma e boa, trago-a

nas cismas de saudade que ando atento,

contemplando-a com os olhos cheios dágua,

nos grandes vôos do meu pensamento.

                          Edinor Avelino [1898-1977], p. 72 a 74, Sínteses [1968], 2ª edição, 1998.

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