Cena Urbana: Professor Pedro Vicente da Costa Sobrinho

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Da Coluna Cena Urbana do Jornalista Vicente Serejo – segunda-feira 9/9/2013

Adágio lamentoso

 

Rua da Frente, Macau RN

Rua da Frente, Macau RN

Pedro Vicente da Costa Sobrinho era um macauense deserdado também daquele mar antigo e personagem do Grande Ponto nos rebeldes anos sessenta que não voltam mais. Talvez a origem simples, como a de todos nós, os nascidos no chão salgado, o tenha feito irmão dos oprimidos, daí ter doado a juventude, inquieta e voltada, á defesa da liberdade. Herdeiro que era, por tradição da terra, de antigas lutas sindicais, tatuando na sua própria alma de ferro o azinhavre da resistência sem fim.

O Recife irredento, com incursões por Jaboatão, a Moscouzinha, foi a escola onde ergueu suas primeiras paliçadas em defesa dos sonhos. Lá, apurou seu gosto pela literatura e as ser leitor de poesias em demoradas horas de compreensão. Foi provinciano no Acre, onde dirigiu a ação cultural do Sesc, teve bar e livraria, conheceu Socorro e foi pai de Mariana. E cosmopolita em São Paulo, mestre e doutor na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, sociólogo de borla e capelo.

Depois, tangido pela saudade, voltou a Natal, transferindo-se do curso de ciências sociais da Universidade Federal do Acre para a Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Aqui, foi diretor da Editora Universitária durante alguns anos, e editou mais de cem livros. Foi eleito para o Conselho Estadual de Cultura e depois a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, e voltou a ser mais um leitor do que um escrito nesses últimos anos, sempre cercado de muitos livros ali bem no alto de Candelária.

Viajante e viajor, conheceu Oropa, França e Bahia, para repetir a idéia de um mundo inteiro, e por isso teve uma paixão em Moscou, onde viveu alguns anos. Tem uma filha mais velha chamada Tatiana, a quem dedicou o primeiro livro, sua dissertação de mestrado. Aposentado como professor foi bater outra vez no Acre, para de novo voltar. E saudoso do mundo que viu, fez uma longa viagem para mostrar Paris a Socorro e Mariana, quando viveram em Montmartre, e de lá veio carregado de vinho.

De Recife, por amizade e por bom gosto, agregou dois dos seus grandes nomes ao catálogo da editora da UFRN, Edson Nery da Fonseca e Alberto Cunha Melo, e deste editou o belo ‘Meditação sob os Lajedos’, com um poema de versos assim: ‘Não tarda o azul, trágico signo, /emoldurar o sol maligno”. E a edição definitiva de Yacala, poema longo e erudito, com um prefácio  de Alfredo Bosi que fez do livro, esquecido no Recife, um instante glorioso da poesia de Alberto, poeta e quase monge.

Nasceu no Acre seu primeiro estudo acadêmico, pela editora Cortez: ‘Capital e Trabalho na Amazônia Legal’; reuniu ensaios e artigos em ‘Exercícios Circunstanciais’, edição Coivara, e ‘Outras Circunstâncias’ , este pela Universidade Federal da Paraíba, e organizou, para citar os mais conhecidos, ‘Reflexões sobre a desintegração do Comunismo Soviético’, edição Alfa-Ômega e ‘Vozes do Nordeste’, UFRN. Queira reunir os artigos sobre a cozinha brasileira e no e-mail seu nome era pedra.

Um dia, veio a mim perguntando se podia hospedar o poeta Alberto Cunha Melo na Redinha, por alguns dias. Ele queria ficar sozinho, longe do Recife , para revisar os poemas de um novo livro. Veio. Na bagagem, algumas roupas, os originais, uma resma de papel, a máquina de escrever e um vidro de pimenta. Passou oito ou dez dias quase incomunicável. Um domingo, fomos visita-lo. E ele então disse que partiria no dia seguinte com o livro de um titulo inesperado: “O Cão de olhos Amarelos”.

Alguns meses depois, chegou pelo correio um exemplar do livro que renascera na solidão da Redinha, na casinha branca de janelas azuis diante do mar que o poeta visitava de manhã muito cedo: estava dedicado a Pedro. E com um oferecimento generoso: ’Para o escritor Vicente Serejo , que narra um mundo melado de gente e que me deu uma praia – linda – Redinha, do admirador Alberto da Cunha Melo –  1.05.06’. Hoje, Alberto e Pedro Vicente estão mortos. Posto que a vida é tristemente assim.

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