Pequenas histórias da minha aldeia: a cabra e a toga

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Barreiras,  2009,  Getúlio Moura

Barreiras, 2009, Getúlio Moura

Falar olho no olho e dizer só a verdade. Foi com este propósito que Jonatas Guliva, camponês de 25 braças plantadas com feijão e milho chegou ao tribunal de justiça. O prédio antigo com o teto alto tinha ar imponente para Jonatas acostumado aos telhados baixos das habitações do seu vilarejo. Fizeram-lhe esperar três horas. Aproveitou para rememorar os detalhes do ocorrido, de forma a não deixar dúvidas perante a justiça.

– Pesa contra o senhor a denúncia de ter matado uma cabra!  – disse-lhe a magistrada com voz aguda e forte, sem ao menos olhar para o acusado, pois ao mesmo tempo em que falava, assinava uma pilha de papéis que a secretária estendia à sua frente.  O senhor confirma? – completou.

Jonatas Guliva, mãos calosas da enxada, estava lívido. O tom forte da voz e a postura prepotente da magistrada não poderia ter causado maior estrago na sua cabeça. As ideias rodopiavam.

– Sim doutora – articulou com dificuldade palavras guturais. — Eu lhe conto a história.

– O senhor se limite a responder somente o que eu lhe perguntar!  Gritou a magistrada, aniquilando o fiozinho de coragem que ainda restava no camponês. — A cabra era branca ou preta?

– Branca com manchas amarelas – respondeu com dificuldade.

– Os chifres eram curtos ou compridos? Silêncio… Os chifres eram curtos ou compridos? Gritou, agora mais forte e ainda sem olhar para o acusado.

– Isso eu não sei – disse finalmente.

– Quantos metros quadrados mede o seu terreno?

– São 25 braças.

– Eu perguntei em metros quadrados!

– Quantos quilos pesava a cabra? — E se arrastou por aí o interrogatório.

E Jonatas Guliva só queria falar olho no olho e contar a verdade. Contar que há vários dias a cabra entrava no seu roçado e destruía sua lavoura. Que pacientemente, levava o animal até seu dono, implorando que o prendesse. Que a morte fora uma fatalidade e que a cabra foi levada viva para o dono que acabou por mata-la e vender toda a carne e couro no vilarejo. Se prejuízo houvera fora dele que perdeu a lavoura. Mas não lhe foi permitido contar a história.

E ao final do interrogatório que quis saber ainda se o animal estava doente, se dava leite e se mancava de uma perna, foi lhe determinado pagar três vezes o valor da cabra.

E o camponês Jonatas Guliva foi para casa sem ter visto os belos olhos azuis da magistrada.

Na minha pequenina e pobre aldeia, há séculos, tem sido assim: almas vivas, semivivas e até mortas vagam por ruas, becos e gamboas a procurar justiça e democracia.

De Claudio Guerra para o baú de Macau.

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