Uma crônica: aparências

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As aparências enganam

Por Le Guerra

aparencias 1Certo dia, estava eu tranquilamente repousado em minha cama lendo um livro, quando meu TOC começou a me incomodar. Sim, eu tenho TOC! E a ansiedade faz com que eu não fique parado por muito tempo, devendo movimentar alguma parte do meu corpo, por mínimo que seja o movimento.

Logo, comecei a pressionar levemente meus dedos das mãos contra a parede do quarto, dando sutis batidas nesta. Porém, o contato da minha sensível pele com a áspera parede fez pequenos cortes nas cavidades que revestem as cabeças dos ossos do metacarpo e a base das falanges proximais (não sou médico e nem recordava tais nomes em minhas aulas de anatomia, o Mr. Google me salvou). E como não percebi que estava sangrando, continuei o movimento e o sangue respingou na parede.

 Com a parede manchada, decidi procurar algum produto que fosse capaz de retirar os resquícios de sangue… Pesquisei bastante e fui à loja especializada em materiais de construção, tintas e outras quinquilharias. Ao chegar lá…

 (Reproduzo o breve diálogo que tive com a atendente)

Eu – Oi, com licença! Por favor, tu sabes se conseguirei encontrar algum eliminador de manchas em paredes por aqui?

E segundos após o questionamento, quando a moça parecia se preparar para uma resposta segura, expressando em sua face uma penetrante ternura e esboçando um simpático sorriso, eu complemento: “… Especificamente para manchas de sangue, por favor!”

Repentinamente, suas expressões agradáveis se transformaram numa espantosa e angustiante tortura, a qual somente é perceptível com o olhar. Olhar que passou a transparecer um certo medo, receio…

Estaria ela pensando que eu era um assassino frio e calculista? Um legítimo psicopata que estava tentando esconder os vestígios de um crime bárbaro, similar ao de Raskolnikov e sua velhinha insensata?

Bom, eu não neguei a existência dos fatos, possivelmente, conjecturados e fui embora sem o produto e com um ríspido “Não, não temos este produto!”; mas com a certeza que “as aparências enganam” e também “desenganam”. Pois, “certa” de que eu não parecia um “serial killer”, mas poderia sê-lo devido ao fato das “aparências enganarem”- a atendente quedou-se equivocada sobre a minha índole.

Moral adjeta à história: Eu tenho TOC, não sou maníaco-psicopata!

Le Guerra para o baú de Macau em outubro de 2013.  

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