Emoções de um flamenguista em noite de glória

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“Descobertas”,

                                                                                                                    por Le Guerra

 maraca flaSabe quando tu és criança e está desvendando o mundo? Quando a frágil e pequenina criancinha está impressionada com alguma nova descoberta?

Bom, é exatamente assim que estou me sentindo. E as palavras me fogem quando tento expressar as sensações que senti há poucas horas.

Saímos do metrô da Cinelândia e uma torcida já parecia querer pintar a cidade de vermelho. Um vermelho vibrante, assim como ela é. O vermelho que corre nas veias e artérias e que pulsa e contagia o coração, pressionando-o quando se sente a emoção de estar num estádio de futebol pela primeira vez.

Ali, cânticos eram entoados em homenagem ao clube e alguns ídolos recentes. Provocações ao adversário – diga-se de passagem: sem torcida – eram igualmente lembradas naqueles gritos vestidos de versos e bradados a pleno pulmões. Sim, eram versos! E o poema estava sendo escrito primeiramente ali, por personagens anônimos, rostos desconhecidos na multidão.

Um tempo e o transporte se moveu para nos deixar no estádio. E, sentados ou em pé às nossas voltas, encontravam-se já muitos daqueles “poetas” de outrora. Embora, agora, durante o percurso, parecessem tensos, aflitos com as expectativas para o jogo.

Chegamos ao estádio, o qual estava completamente iluminado. E, por um equívoco nosso quanto ao recebimento dos ingressos, tivemos que caminhar por quase toda a parte externa do Maraca. Local que, excetuando os dejetos de cavalos espalhados pelo chão, estava muito bem organizado.

Seguimos neste caminho, passando por bilheterias e cruzando torcedores animados para o início do jogo. Neste momento, outra descoberta se somou àquela já presenciada no metrô. Sim, era visível, só existia uma torcida naquele local e ela vestia o vermelho pulsante do coração.

Aqui, desejo fazer um adendo à narrativa, pois estou escrevendo na primeira pessoa do plural e pode parecer estranho para alguns que não sabem que fui ao estádio acompanhado de um amigo. Fiquem tranquilos! Não estou me influenciando pela construção sintática comum no meio futebolístico.

Já na área interna do estádio, outras descobertas. Começava a perceber quantas famílias estavam presentes naquele lugar. Quantas senhoras e senhores encontrei. Ah, e quantos pequeninos! Aqueles que nos fazem recordar as nossas primeiras descobertas e que, decerto, com esta experiência de estar num estádio de futebol partilhando emoções, nunca deixarão de acompanhar aquele vermelho de listras pretas estampado nas camisas que trajavam. Mesmo que venham a sofrer, tal qual um dia já sofri, chorei, esmurrei travesseiro, rezei ajoelhado para aquele vermelho pulsar não apenas nos meus vasos sanguíneos, mas também nos campos de futebol.

E a pulsação das arquibancadas parece ter contagiado o time, que não tinha qualquer refinamento no toque de bola, algo corriqueiro nos clubes brasileiros. Contudo, soube sequenciar os versos proferidos pela torcida, desenhando belos lances de gols.

Além disso, o termo raça nunca foi tão bem definido como nas divididas de jogadores como Luís Antônio ou Amaral, embora contrastassem com a apatia de Cadu, o qual foi digno dos “elogios” levantados pela torcida a cada passe errado ou jogada mal concretizada por ele.

A vibração, a raça, a torcida, indubitavelmente, foram elementos que influenciaram no resultado. A dita “nação” não parou de cantar nem um segundo qualquer. E, a cada gol, novas descobertas eu fazia, como desvendar que a partilha de um mesmo sentimento pode modificar as pessoas e estimular a fraternidade com outras, desconhecidas até então, mediante gestos e abraços e cumprimentos mil.

Sim, o ambiente foi de união, provocação e muita alegria com a queda da estrela, não cadente inteiramente, mas solitária. E caiu de quatro para estimular a algazarra e mais provocações na volta para casa e no amanhã, em um dia repleto de descobertas.

Le Guerra em outubro de 2013.

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