Mamíferos que voam: das memórias de uma professora de Macau

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Alunos na entrada do Grupo Escolar Duque de Caxias em Macau. Década 1950. Arquivo de Hilma Coutinho Melo

Alunos na entrada do Grupo Escolar Duque de Caxias em Macau. Década 1950. Arquivo de Hilma Coutinho Melo

Corria a aula em sala quente. Tudo pela metade: a professora que dava aula para duas séries de uma só vez, a merenda que não estava completa, a sala de aula com uma parte do teto caída, as carteiras para só um e ocupada por dois. Tudo muito improvisado e terrível. E seguia a aula, a professora cansada, aula de ciências agora, que estas criaturas devem saber pelo menos que a vaca do seu Toinho que dá o leite da merenda é um animal e é um mamífero.

É mamífero porque mama. E quem mais mama? Perguntou Dona Senhorinha com o ar de desânimo. O homem! Respondeu a menina de olhar brilhante. A Mulher, completou seu colega de carteira! E todos riram. Porque riram? Se falarmos homem temos que falar mulher também, completou. Saltou outro percebendo tudo e disse os humanos! Bravo! Dona Senhorinha alegrou-se com tudo aquilo acontecendo naquele sertão seco de pedras e longe do asfalto e se esmerou em explicar sobre os mamíferos.

E depois de tudo, aula dada, bem dada, perguntou: Alguém pode me falar o nome de um mamífero voador? Silencio de salina abandonada e agora só o barulho do motor puxando água do poço de Alexandre na terceira vazante do Amargoso.

 Na frente os olhos enormes e o riso de mofa, um meninozinho franzino: Anjo, professora! E a aula acabou.

De Claudio Guerra para o baú de Macau [das memórias dos meus amigos macauenses]

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