Um dia de procissão em Macau

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Procissão Nossa Senhora dos Navegantes em Macau, Rio Assú, década 1960, Arquivo Chaguinha Souza

Procissão Nossa Senhora dos Navegantes em Macau, Rio Assú, década 1960, Arquivo Chaguinha Souza

…] Os veleiros deslizando na preamar, se exibindo como cisnes. Gritos da bateira: “Cuidado!… vai bater!. Foguetões. O povo se espremendo no cais da prefeitura. Cais velho de madeira apodrecida. “Não vai aguentar!”, grita preocupado o marujo da capitania. O rebocador acelera formando um sulco profundo na maré e deixando um rastro de lama e ciscos que redemoinham na superfície. A fumaça escura, quase preta, ganha o céu. Os batelões e os ioles com a boca quase na linha d´água, carregadinhos de fiéis quase soçobram nas ondas provocadas pelo rebocador.

O povo embarca sofregamente e os que não conseguem, disputam agora um lugar na margem do rio para acompanharem a evolução das embarcações. Todos querem ver a santa e o monsenhor. Logo mais, o rebocador Santana todo enfeitado com bandeirolas azuis, descerá o rio até o farol do Alagamar com o monsenhor Antonio aninhado na proa levando no colo a imagem da virgem e cercado por centenas de fiéis, bem mais do que a embarcação poderia carregar.

Procissão Nossa Senhora dos Navegantes em Macau, Rio Assú, década 1960, Arquivo: Chaguinha Souza

Procissão Nossa Senhora dos Navegantes em Macau, Rio Assú, década 1960, Arquivo: Chaguinha Souza

 

Mais foguetões. Ao largo, quase na margem oposta, as embarcações navegam apinhadas de gente colorida. A lancha Presidente Dutra avança perigosamente balançando num aderna, não aderna. O risco é iminente.

Em meio às autoridades postadas no pequeno palanque improvisado junto aos cais, o capitão dos portos demonstra preocupação e despacha a ordem para as embarcações com excesso de passageiros retornarem ao porto. Ninguém obedece. Tudo é festa. “Estamos sob a proteção da santa e ela é forte”, — responde aos gritos o mestre de um bote carregado de azuis.

A multidão extasiada se acerca agora das Rocas. O pequeno cais de madeira já bastante desgastado pelo uso curva-se sob o peso dos devotos de Nossa Senhora. “Não vai aguentar…” comenta baixinho o pescador do grande batelão vermelho, também apinhado de fiéis e sem demora passa a zingar a toda fugindo da margem.

 

Cais de Macau, década 1950. Arquivo Hilma Coutinho Mello

Cais de Macau, década 1950. Arquivo Hilma Coutinho Mello

Alheio a tudo, varejando na margem rasa e lodosa, aproxima-se um batelão de cor indefinida, velho, fazendo água, que tenta fundear. Traz o petrechos de pesca: redes, linhas, arpão e o cesto com poucos peixes. Do cais lhe gritam algum insulto. O homem magro, sem camisa, suspende a vara, responde ao insulto e muda o rumo da embarcação. Não há como ancorar naquele cais.   

Capítulo 1, página 10 e 11 do romance de Claudio Guerra,  Ninguém para a Coréia. O romance fala do episódio ocorrido em Macau no início de 1951 quando o povo fez valer sua voz em reivindicações de cunho local [contra a falta d’água], nacional [contra a inflação] e internacional como a luta contra o envio de tropas brasileiras para a invasão da Coréia como era exigido pelo governo dos Estados Unidos.

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