Peroba Rosa

0

peroba rosaA ligação ficou ruim quase inaudível, melhorou depois ao tempo de ouvir peroba rosa. Perguntei de novo, e então o Ademar, um irmão que  povoa São Paulo de árvores numa luta incansável contra canavieiros, sojeiros e eucalipteiros. A história remonta a bem antes de 1964. Quis o povo que a peroba rosa nascesse e florescesse ao lado do que antes fora a Delegacia de Polícia e presídio de Paraguaçu Paulista. No centro da cidade olhando para Nossa Senhora Aparecida que ficava no altar direito da igreja de Nossa Senhora da Paz e aonde sempre ia quando menino, fazer minhas preces para a vida melhorar. Bem, a vida não melhorava, mas a esperança foi nossa companheira desde sempre.  

Pois bem floresceu a árvore entre a Delegacia de Polícia e a Prefeitura da cidade. Da Delegacia tenho duas recordações, a má e uma boa. A má contada pelo meu pai que no golpe de 1964 viu um cidadão de bem subir preso as escadarias que levava às celas. Disse-me “eu não sei  que mal aquele bom homem fez para ser preso pela revolução”. Era assim que papai falava do golpe como revolução. Um golpe que só trouxe desgraças pois quando as coisas pareciam que iam melhorar com o Jango e o Brasil campeão de futebol, ficou tudo ruim, de novo.

A boa foi ali pelos início dos  setenta. A Delegacia de Polícia, graças à sabedoria dos homens públicos de Paraguaçu tornara-se uma Biblioteca Pública e eu fui ali várias vezes em busca de livros de antropologia com que completava a bibliografia do curso de história da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, hoje UNESP.

Pois voltemos à Peroba Rosa. Quis agora neste ano de 2013 que na dispersão das sementes, uma fosse cair no jardim, próximo do lugar onde um bicho preguiça morava nos sessenta e nesse lugar brotou. E como José, meu cunhado, nascido sob o sol quente da caatinga, onde de verde só o juazeiro e que saiu do Ceará para plantar árvores pelo país afora, foi descobrir a muda de Peroba Rosa no belo jardim de Paraguaçu, cercado de Coroa de Cristo naqueles sessenta. O jardineiro concordou em conservar a muda da peroba rosa que não poderia crescer ali. Vai crescer na divisa com Minas Gerais, terra também de boas árvores. 

E assim esses dois brasileiros, Ademar e José,  vão equilibrando um pouco a desgraceira que o capitalismo faz no nosso Brasil com a super-extração.

De Claudio Guerra, — também plantador de árvores — para o baú de Macau.

Deixe uma resposta