De milagres e ditaduras

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Maurice F. Pointeau, 1962

Maurice F. Pointeau, 1962

E passados esses anos todos, ainda há controvérsias. Afinal a virgem subiu ou não subiu ao céu de Macau. E olhe que naqueles tempos das ditaduras tudo era possível nas terras latino-americanas, até uma virgem subir ao céu. E então, em Macau, naquele setentrião tapuia, chão de sal, ruas compridas e casinhas amigadas, anunciou-se o milagre.  Eram os setentas de coturnos e pau de arara e a câmara municipal de Macau chamava-se Palácio Presidente Médici, gravado no luminoso da fachada. Um carro de som anunciou a semana toda por ruas e becos e lugares longínquos que uma virgem subiria ao céu na hora sagrada do pingo do meio dia na segunda feira. O povo, carente de milagres deslocou-se inteiro para Macau naquele dia anunciado. Do Mato Grande, do Vale do Açu, das praias ermas, agrestes e sertões distantes, porque todos queriam assistir ao milagre de ver uma virgem subir ao céu naquela Macau de sal, desemprego e miséria. Na segunda feira, comoção grande e a cidade agitada como nunca se vira. As onze e trinta parou tudo e a multidão cercou a pequena pracinha triangular de pedra dura e arvorezinhas raquíticas. Chegou o pingo do meio dia e a virgem não subiu ao céu.  Aliás, quase ninguém viu a suposta virgem e mesmo assim houve quem jurou ter visto a virgem subir ao céu, detalhando até suas vestes sagradas.  Por fim, a multidão frustrada cansou-se e aos poucos foi embora, chateada sem esconder que fora vítima de mais um engodo. E a explicação para a virgem não subir ao céu não teve explicação. De Claudio Guerra para o baú de Macau