Aguarda o Príncipe Infante

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Aguarda o Príncipe Infante

em seu trono de madeira envelhecida

a contemplar o vivo verde

dos bosques imperiais

e o virginal azul

do majestoso Açu.

As árvores chacinadas pelo

progresso incomodam sua vista

bem mais que o enferrujar

dos portões e da varanda

que assumem tons de um antigo vermelho.

Sorri ao contemplar uma

embarcação silenciosa

abandonada aos sabores da maré

aguardando sua hora de singrar

o caudaloso rio em

direção ao mar abençoado!

Em meio a nuvens cor de chumbo

o sol teima em se insurgir

e mostrar sua benéfica claridade.

As andorinhas se erguem em

revoada dos fios, antes

prenhes de sua presença.

A suave brisa de início

de tarde mal toca o

rosto com seu mormaço

e balança as folhas da palmeira

num balé alucinado de sonho

e fantasia.

As aves de rapina, em seus vôos rasantes,

aproximam-se da Imperial Casa

e, por um instante, imagina

o Infante se já não cobiçam

seus restos…

Ainda vive? Respira?

O pus do ressentimento ainda

permanece estagnado no coração

ferido, sem bálsamo provável…

Uma canoa corre as águas do Açu

E lhe arranca um sorriso triste…

Saudades de algo que não teve…

Saudades de alguém que não esteve…

Saudades…

 

 Daniel Násser, em Macau, Rio Grande do Norte, fevereiro de 2014.