Lamarão II: um novo texto sobre o assunto de Bevenuto Paiva

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Foto de E. Valle: ao fundo navios no Lamarão. Arquivo: Getúlio Teixeira

Foto de E. Valle: ao fundo navios no Lamarão. Arquivo: Getúlio Teixeira

É conhecida como Lamarão, a área que fica defronte a Ilha de Camapum que servia de fundeadouro para os navios carregar de sal em Macau e que ficavam aproximadamente a uma distancia de oito a nove milhas da ilha. Os navios maiores se afastava um pouco por causa da carga  não correr o risco de ficarem encalhados. Os navios maiores tinham de carregarem até dez toneladas de sal e os menores a partir de quatro mil. O fato dos navios fundearam mais á terra é que as barcas eram e vela não tinham facilidades para atracação.

O Sindicato dos Estivadores era avisado com antecedência da previsão de chegada dos navios e a partir de então já preparava o pessoal que devia operar no mesmo. No dia programado da chegada o contínuo do Sindicato ia até a torre da Igreja para verificar se realmente havia chegado , a partir da confirmação então os estivadores eram transportados para o navio. Com o navio fundeado e os estivadores a bordo agora começava a saída das barcaças, quando tinham  bom  vento para navegar elas saiam só e quando não tinham eram rebocadas até a saída da  barra para navegar já no mar. As barcaças eram rebocadas , pelo rebocador Macau, Ricardo ou a lancha Liberdade, dependendo da quantidade e também  do rio, estar cheio.  Os estivadores não tinham alojamentos próprios tudo era improvisado. Durante o dia a estiva só parava suas atividades se não tivesse nenhuma barcaça no costado do navio para descarregar.  E era necessário fazer o rechego, para novo carregamento durante o dia. Como o navio estava fundeado a única maneira de ter acesso ao mesmo era através da escada de quebra-peito, acesso esse perigoso de uma altura aproximada de dois metros, sujeito ao balanço das barcaças em cima da escada, pois tinha o risco de cair no mar entre a barcaça e o navio e isto dependia do balanço das ondas.

Tive a oportunidade de passar  três dias no navio vendo todo trabalho como era feito, a hora que começavam  a trabalhar até  o término do serviço, pois não ficava barcaça no costado do navio a noite, todo descarregamento  era durante o dia até terminarem. É importante saber  que esse trabalho não resumia só no descarregamento do sal , pois terminado esse serviço, já num pedaço da noite, tinha que fazer o “rechego” que ia as vezes até as 21,00h.

E. Valle, 1950, trabalho dos estivadores: barcaças com sal para os navios no Lamarão

E. Valle, 1950, trabalho dos estivadores: barcaças com sal para os navios no Lamarão

 

Os que fundeavam no Lamarão, na maioria pertenciam a Companhia Comércio e Navegação, dona da maior salina, com dezenas de pilhas no aterro na entrada da cidade, formando um verdadeiro cartão postal. Os navios mais constantes eram: Jacaui, Guaiba, Tibagi e Meriti e ainda viam navios da firma Industrias  Reunidas  Francisco Matarazzo, da Companhia Loide Brasileiro e de outras pequenas companhias.

A vida dos trabalhadores da estiva sempre foi de muito sacrifício, de inicio causada pela falta de um porto, pois nos primórdios de suas atividades chegavam a passar até dez  ou doze dias ausentes de seus familiares, só depois da Segunda Guerra com a criação das Lei Trabalhistas é que passou ser observado o descanso semanal. Esses trabalhadores durante a existência da Guerra contribuíam com o Abono de Guerra descontados do seu  pagamento e com o término nunca tiveram direito a nenhum  benefício, pois viviam expostos aos ataques de submarinos como  qualquer pescador ou marítimo que tinham suas atividades no mar. Tudo vi e vivi, e sei que o progresso melhorou a cidade, os industriais ganharam muito dinheiro, e o governo mais que todos continua ganhando, e aqueles trabalhadores de salinas, barcaceiros e estivadores ficaram jogados na sarjeta do esquecimento, deixando suas famílias desamparadas.

Natal,13/03/2014,                             Bevenuto de Paiva.