50 anos do golpe que feriu a nação: Das memórias do patriota Floriano Bezerra

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1 de abril de 1964: a força das armas derrubam o governo legitimado nas urnas

1 de abril de 1964: a força das armas derrubam o governo legitimado nas urnas

A ditadura que infelicitou o Brasil completa agora em 1 de abril, 50 anos. Por sua independência e altivez as lideranças políticas e sindicais dos trabalhadores da indústria do sal de Macau, Rio Grande do Norte, sofreram – eles e seus familiares — um dos mais dantescos episódios de pura maldade e crueldade promovida por aqueles que derrubaram, pelas armas,  governantes e parlamentares eleitos pelo povo. O ex-deputado Floriano Bezerra foi um dos atingidos pela crueldade da ditadura.  Altivo, publicou em 2009 um livro das suas memórias. Dos vários textos que compõem o livro, reproduzimos as recordações de Floriano Bezerra sobre o dia do golpe. Com isso o baú de Macau homenageia a todos aqueles que lutaram e lutam por vida com dignidade para todos. Para todos. 

Da Equipe do baú de Macau 

 

 1º de abril – O golpe militar nas ruas, rumei para Macau [Natal, 1964]

Por Floriano Bezerra de Araújo [*]

Coisa de 10h da manhã, tomei conhecimento do golpe militar em curso – tropas tomavam posição em pontos estratégicos da cidade, a população ainda desavisada, ou aturdida pelas ruas, casas e calçadas.

 

Foto Getulio Moura  1981. Sindicato dos salineiros. Trabalhadores perseguidos pela ditadura.

Foto Getulio Moura 1981. Sindicato dos salineiros. Trabalhadores perseguidos pela ditadura.

Não pensei duas vezes. Entrei num táxi na Princesa Isabel, cujo motorista tinha codinome de “Tetéo”; era polícia e eu não sabia. Foi direto comigo para um posto de gasolina na base do prédio do sindicato dos motoristas/rodoviários, no Baldo, onde estava um comando do Exército. Vendo a maldade do motorista, adverti-o em tom forte, que precisava chegar a Macau, onde tinha minha família. O homem parou no posto e perguntou: “Tem gasolina?” Não, respondeu seco, o Cabo da Guarnição; e eu, em voz baixa, enérgica, impaciente, vamos, “Tetéo”, preciso chegar a Macau, repeti.  O “tetéo” saiu de ré, e fomos então para a cidade do sal.

Lá chegando, tomei algumas providências em família, deslocando-me então ao Sindicato sob minha presidência, e fui conversando claro com os trabalhadores, que chegavam aflitos, revoltados, senão temerosos.

Do que acontecia no país, fiz rápida avaliação em cima dos mais graves episódios nos grandes centros urbanos no Sudeste, Sul, e Nordeste, notadamente, e tal… e tal… Mas, dizia eu, o momento é difícil. Há muita apreensão no país inteiro. Temos que ter cautela, muita moderação. Vamos, todos, ficar de expectativa durante 10 a 15 dias, e assim veremos o que vai acontecer, o que teremos de fazer na conjuntura.

No entanto, as categorias profissionais organizadas, locais, com firmeza moral, sem ouvirem lideranças, cruzaram os braços em extensão massiva/unitária na Região Salineira, ficando só de ouvir, pesar e saber dos acontecimentos – em grande esperança na continuidade do governo constitucional do Dr. João Goulart, o que infelizmente, não aconteceu.

Já preso no 16º RI, em Natal, eu soube que, só no dia 15 de abril, os Trabalhadores decidiram voltar ao trabalho, porque o quadro político nacional estava definido, a contra-revolução golpista vitoriosa, as lideranças organizadas civis, sindicais e políticas, presas, vilipendiadas, inclusive nobre parte da intelectualidade engajada no patriótico projeto das Reformas de Base, trabalhado e defendido pelo governo central, deposto no golpe.

-Aí mais uma vez, os trabalhadores e o povo, todos desamparados das cidades aos campos – foram atrelados nesse carrossel do neoliberalismo, em guetos de fome, desemprego, grandes desigualdades, no caos dos serviços sociais, no fogo abrasador da violência urbana, nesse corolário de agonias e misérias sócio-econômicas, sem horizontes libertários de vida melhor, paz e bem-estar geral, a curto prazo, à mão da vontade coletiva da nação brasileira. Não obstante, é só querer e lutar pelo sonho, então, sem dúvida, conquistaremos a democracia das liberdades civis, da grande igualdade social de todos, da paz e da justiça.

[*] páginas 313/314 da obra Minhas Tamataranas: linhas amarelas – memórias.