Izabel

0

Rua da minha adolescência. Nesta terceira casa, a partir da esquina e que tem duas janelas bem altas é que parti para outras plagas. Aos dezesseis anos sem enxergar nenhum futuro promissor, não podia mais ficar, mercado para trabalhar não existia, ainda mais depois de terminar o curso primário.

 

1939, Rua Princesa Isabel, arq Francisco Gama, Foto de E.Valle

1939, Rua Princesa Isabel, arq Francisco Gama, Foto de E.Valle

Deixando meus pais, irmãos, amigos, moradores e conhecidos, não havia outra alternativa senão partir. Grande parte desses moradores era sem instrução, mas todos trabalhadores honestos que lutavam pelo pão de cada dia, principalmente naqueles dias amargos da Segunda Guerra, quando toda atividade ligada a exportação de sal esteve paralisada pela falta de navios. A população passou a sobreviver da pesca, dos pequenos serviços de construção, carregar água, venda de mariscos de porta em porta e até saírem para outra cidade. Passado esse período, a cidade parece rejuvenescida e tudo começa florescer como um novo dia. Nesta rua onde moravam estivadores, barcaceiros, carregadores d’água, carpinteiros, um oficial de justiça, três pequenas bodegas, uma pequena escola primária, cuja professora era Maria Anita (esposa de Antônio Toró) e que também costurava roupas, assim vivíamos todos irmanados, além de um motorista da Usina de Força e Luz da Prefeitura e um motorista de um motor na salina Xaréu. Apesar da melhoria de vida, decorrente da atividade do sal, a cidade padecia pela falta de luz, na rua só três casas tinham luz elétrica que funcionava só a noite até as vinte e duas horas e apenas duas tinham radio receptor.  

Recordo dos vizinhos que em noite de lua, saíamos juntos para apanhar  sal no aterro , que íamos conversando e assim voltávamos. Tempo que passa como a água do rio, esse passado bem antigo que sinto e vejo refletido na memória, mas que dos moradores antigos, daquela época ainda existe um morando na mesma casa, com cento e um ano de idade (Maria de Damiana) que naquela época fazia cuscuz de milho pisado no pilão, angu de milho e manguzá. Não posso esquecer o gelé de coco, feito pelo seu Samuel, que era morador da mesma casa.

Hoje a rua é outra realidade, os moradores são outros, os moradores grande parte emigraram de outras cidades, as casas todas remodeladas, acompanharam o progresso, somente a Prefeitura Municipal não pode levar essas mudanças até esta rua, pois todas essas mudanças ocorridas foram graças à iniciativa privada, ainda é hora de pelo menos arborizar a rua, pois em termos de despesas não chegaria a quantia de R$ 2.000,00  e todos que vissem esta ação aplaudiriam os Senhores Vereadores. Temos que aplaudir os Evangélicos pela construção do belo templo da Igreja e o proprietário da Casa Souza pela instalação do seu comercio. Dos antigos moradores que já partiram para a Morada Eterna não podemos  esquecer dos: estivadores José Honorato, José Conceição, José Sarambeca, Manoel Canã, Eliezer, Manoel Bevenuto e Luiz Vicente , do oficial de justiça- Francisco Antônio, o barcaceiro Raimundo Galo e Carpinteiro Roseno. Como um ex-morador que não esquece as raízes, o seu passado, volto a sugerir que pouco custa o plantio de meia dúzia de árvores na dita na rua, se houver vontade politica, as árvores serão plantadas. Quero enfatizar que o plantio das árvores sugeridas não se deve apenas uma vontade própria, que já escutei de diversas pessoas que visitaram a cidade que é muito calorenta e que é exatamente esta falta de arborização. Os senhores Vereadores que muito gostam da cidade chegou o momento de mostrar o amor que dedicam à mesma.

Bevenuto de Paiva, Natal, 31de janeiro de 2014