Lição de cidadania dos potiguares: solenidade de devolução dos mandatos do Prefeito Djalma Maranhão e do Vice-prefeito Luiz Gonzaga

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Natal-RN, 1963. Inauguração da 3ª Praça da Cultura.

Natal-RN, 1963. Inauguração da 3ª Praça da Cultura.

Dos absurdos do golpe de 1964, a destituição do Prefeito de Natal [RN], Djalma Maranhão e do Vice Luiz Gonzaga foi de uma brutalidade extrema. Testemunha do episódio a Professora Mailde Pinto contou que militares fortemente armados investiram contra o prefeito e seus assessores e sob o argumento de metralhadoras apontadas para suas cabeças, exigiu que deixassem a Prefeitura.  Ato de covardia e submissão das forças armadas, tramadas pela parcela da burguesia brasileira “unha e carne” com o imperialismo sob o controle da burguesia norte-americana.  O país mergulhou na miséria que temos hoje que só poderá ser diminuída por medidas efetivas de superação da miséria, pois não basta incluir o povo no consumo, é preciso incluí-lo na cidadania.

 Ao rever as velhas fotografias de famílias da década de 1950 e começo de 1960 é visível uma pobreza com dignidade e que se alçaria à vida com dignidade para todos com as reformas de base do Presidente João Goulart anunciadas em 1964.  A ditadura veio com sua truculência e  transformou a pobreza com dignidade em miséria. Torturou e matou aqueles que não se calaram diante dos absurdos.

As forças militares foram transformadas em cão de guarda da burguesia, cujo maior expoente era o governador de São Paulo Ademar de Barros acusado de ser um dos maiores corruptos daquela época.

Agora [3/4/2014], passados 50 anos daquela época de sofrimento, a Câmara Municipal de Natal em ato solene devolve os mandatos de Djalma Maranhão e Luís Gonzaga. Para o Vereador  George Câmara [PCdoB] autor da proposição,   É dever nosso reconhecer esse triste erro, ainda que simbolicamente reparando esse ato de arbitrariedade, quando essas duas pessoas faziam políticas públicas que representavam o povo natalense. É dever de justiça desta casa reestabelecer os mandatos daqueles que injusta e ilegalmente foram perseguidos pela ditadura.

Natal-RN, 1963. Djalma Maranhão e Luis Gonzaga com o bispo D. Nivaldo Monte

Natal-RN, 1963. Djalma Maranhão e Luis Gonzaga com o bispo D. Nivaldo Monte

 

Para o escritor Nei Leandro de Castro que escreveu a orelha do livro de Mailde, 1964. Aconteceu em Abril, Edições Clima, 1994, Nenhum sofrimento foi posto à margem Mailde não esqueceu de nada. O seu livro pede tacitamente para ninguém esquecer os violentadores da nossa liberdade.

E foi de liberdade que o poeta macauense Horácio Paiva, presidente do Comitê Municipal da Memória Verdade e Justiça de Natal participante da solenidade falou no seu discurso:

                               Esta sessão é uma sessão de reencontro… com a história! E aqui represento a Comissão Municipal da Memória, Verdade e Justiça, de Natal, que tenho a honra de presidir, pelo seu significado histórico e também pela estatura moral e social de seus membros: Roberto Brandão Furtado, Afonso Laurentino Ramos, George Câmara, Maria Rizolete Fernandes, Jeane Fialho Canuto e Luciano Fábio Dantas Capistrano.

                               Mas aqui também represento uma geração otimista quanto à vocação de grandeza do Brasil: milhares de jovens organizados e engajados no sonho de justiça social, cuja criatividade cada vez mais se expressava, tanto no plano cultural como no debate politizado e dirigido às aspirações de democracia, independência e desenvolvimento de nosso País, e que, de súbito, viram paralisada a marcha desses ideais ante a repressão que lhes foi imposta com o advento dramático do golpe de 1964.

                               A brilhante administração de Djalma Maranhão e Luiz Gonzaga dos Santos, tolhida pela ditadura, guardava identidade com os sonhos daquela geração e se revestia da mais absoluta legitimidade, não apenas porque resultara do voto direto e secreto consagrado em eleição incontestável, mas também porque interagia com o povo, entendia as suas necessidades, valorizava as suas raízes culturais, o que a fez cumprir, com êxito, extensa plataforma programática, onde se destacaram a cultura e a educação, tornando-se nacionalmente célebre a campanha denominada “DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE A LER”, registrada, com ênfase, na história da educação brasileira.

                               Hoje, Digníssimos Senhores Vereadores, esta Casa está de parabéns, pela Resolução que anula a cassação dos mandatos de Djalma Maranhão e Luiz Gonzaga dos Santos e os devolve simbolicamente, numa clara demonstração de que a Câmara Municipal de Natal, ao lado dos natalenses e em harmonia com os anseios políticos e sociais do povo brasileiro, trilha acertada e honrosamente, no resgate histórico da justiça,  o caminho da legitimidade e da consolidação democrática.

                               Parabéns que, em particular, incluem, pela feliz iniciativa, o ilustre propositor da mencionada resolução, o Vereador George Câmara.

                               Em 2013, esta mesma Casa, acolhendo, à unanimidade, também proposição do Vereador George Câmara, criara, pela Lei 6.393, a Comissão Municipal da Memória, Verdade e Justiça. Reafirmo, por adequação e oportunidade, o que disse no momento da posse dos membros desta Comissão:

                               “Entendo  –  e não tenho dúvidas quanto a isto  –  que se cumpre mais um ciclo no processo de construção da democracia em nosso País, com o movimento em prol da memória, da verdade e da justiça, que se manifesta na criação das diversas comissões estaduais e municipais, a partir da nacional, criada em maio de 2012: o ciclo da memória, do resgate de nossa história e dos fatos que ainda se encontram sepultados no entulho autoritário e traumático do regime ditatorial. E que temos, sobretudo, o direito de ver esclarecidos, porquanto o resgate histórico compreende também o sentido moral de resgate de nossa dignidade e do conhecimento da verdade.”

                               Portanto, Senhores, este ato memorável, promovido neste palácio que tem o nome do herói libertário e republicano Padre Miguelinho, transcende o seu simbolismo.

Natal-RN. 1963. Biblioteca Popular

Natal-RN. 1963. Biblioteca Popular

 

                               E mesmo que já não se encontrem entre nós os homenageados, de há muito falecidos, Djalma Maranhão e Luiz Gonzaga dos Santos, Prefeito e Vice-Prefeito de nossa querida Natal, É, NA REALIDADE, ATO CONCRETO E ATUAL, OU MELHOR: ATO POLÍTICO, ATO DE CONSTRUÇÃO DEMOCRÁTICA, ATO DA DEMOCRACIA!

                               E que seja exemplo de solução democrática, porque É À PRÓPRIA DEMOCRACIA, E JAMAIS À DITADURA, QUE CABE A CORREÇÃO DE SEUS ERROS E A ESCOLHA DO MELHOR CAMINHO PARA O POVO QUE A CONSTITUI E A INTEGRA!

                               E agora permitam-me ler, em forma de homenagem a essas duas grandes figuras humanas e sociais que dedicaram suas vidas à edificação de valores tão caros à humanidade, um célebre poema de Paul Éluard, poeta que lutou na Resistência Francesa contra as forças nazistas que ocupavam o seu País, durante a 2ª Guerra Mundial. O poema se intitula “Une seule pensée”, em tradução de Manuel Bandeira e Carlos Drumond de Andrade:

 

UM ÚNICO PENSAMENTO

 

Nos meus cadernos de escola

Nesta carteira, nas árvores,

Nas areias e na neve

Escrevo teu nome

 

Em toda página lida

Em toda página branca,

Pedra, sangue, papel, cinza,

Escrevo teu nome

 

Nas imagens redouradas,

Na armadura dos guerreiros,

E na coroa dos reis

Escrevo teu nome

 

Nas jungles e no deserto,

Nos ninhos e nas giestas,

No céu da minha infância

Escrevo teu nome

 

Nas campinas, no horizonte,

Nas asas dos passarinhos

E no moinho das sombras

Escrevo teu nome

 

Nas veredas acordadas

E nos caminhos abertos,

Nas praças que regurgitam

Escrevo teu nome

 

Na lâmpada que se acende,

Na lâmpada que se apaga,

Em minhas casas reunidas

Escrevo teu nome

 

Em meu cão guloso e meigo,

Em suas orelhas fitas,

Em sua pata canhestra

Escrevo teu nome

 

No trampolim desta porta,

Nos objetos familiares,

Na língua do fogo puro

Escrevo teu nome

 

Em toda carne possuída,

Na fronte de meus amigos,

Em cada mão que se estende

Escrevo teu nome

 

Em meus refúgios destruídos,

Em meus faróis desabados,

Nas paredes do meu tédio

Escrevo teu nome

 

Na ausência sem mais desejos,

Na solidão despojada,

E nas escadas da morte

Escrevo teu nome

 

Na saúde recobrada

No perigo dissipado

Na esperança sem memórias

Escrevo teu nome

 

E no poder de uma palavra

Recomeço minha vida

Nasci pra te conhecer

E te chamar

LIBERDADE.

 

As fotos da ilustração foram copiadas do livro de Mailde Pinto Galvão, 1964. Aconteceu em abril