Testemunhas

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baralho1Jogavam todas as tardes sob as frondosas mangueiras do quintal. Sombra de dar gosto na cidadezinha perdida naquele sertão de meu deus.  Ele era hábil no jogo, perceptivo, tinha faro e se a sorte não ajudava buscava logo uma estratégia para ficar na vantagem. Eles eram quatro e jogavam todas as tardes até o escurecer. Ele começou ganhando todas, o que seria normal. Depois, inexplicavelmente começou a perder algumas. Notei que passou batido por três vezes, até o adversário ganhar. Inexplicável. A mente continuava lúcida, muita lúcida para os seus 70 anos. Indaguei, não resisti. E aí veio a confirmação:

– Eu sei que posso ganhar todas. Esse jogo não é de sorte, é de habilidade e percepção. — Eu leio tudo nos gestos e olhos dos adversários. — Os olhos nunca mentem e sei até com quantas rodadas eu ganho.

– Mas e se eles desistem de vir aqui toda tarde jogar? Você já imaginou a tragédia?.

E então percebi que era mesmo uma tragédia extraordinária para quem estava há mais de vinte anos sem esposa e há mais de dez anos morando sozinho naquela casa que ficou enorme com a morte da mulher e a saída dos filhos e que ele agora se agarrava com todas as suas forças ao cotidiano feliz daquelas tardes estúpidas.

Mas ele percebera outras coisas piores acontecendo ali sob as sombras das mangueiras, mas não teve coragem de falar, pois não afastaria os parceiros do jogo. Não, cada um que olhasse ao seu redor.  Para não ficar com remorsos, alertou e deixou todo mundo com interrogações e suspeitas.

E as mangueiras, desfolhadas na geada de 1975 brotaram e tornaram-se frondosas, acolhendo todo mundo. E ficaram como testemunhas.

 

De Claudio Guerra para o baú de Macau