Tragédia potiguar

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Recente matéria da mídia local trouxe os dados da criminalidade no nosso Estado. É triste a constatação de que somos campeões com vários corpos à frente nesse quesito.  O fato me remeteu à orelha do livro  Cidadãos off –line  e o Lixão do Maruim de Macau, publicado em 2010 pela Baú de Macau – Editora e Artes e que mereceu um pequeno, mas favorável comentário do consagrado jornalista Renato Pompeu, [falecido recentemente] na revista Caros Amigos e uma entrevista na Rádio Justiça do Supremo Tribunal Federal. Como não há retoques no retrato da situação, republico o texto neste momento  que os partidos políticos se articulam para mais uma eleição. É preciso cobrar, pois Estado [federal e estadual] vem tratando com descaso essa tragédia potiguar, ou por falta de políticas públicas ou pelo não funcionamento das que existem.  É só comparar com as obras de copa onde tudo funciona bem e rápido.

De Claudio Guerra para o baú de Macau

Orelha do livro Cidadãos Off-line e o Lixão do Maruim de Macau

 

Peixes mortos no desastre ambiental de 1999 em Macau. O desastre humano  nas terras potiguares é semelhante neste 2014

Peixes mortos no desastre ambiental de 1999 em Macau. O desastre humano nas terras potiguares é semelhante neste 2014

Em que pese os tímidos avanços sociais ocorridos durante a última década no Rio Grande do Norte, tímidos, mas avanços, o Estado continua sendo um dos piores do país na distancia entre os que têm muito e os que não têm nada. Existe um muro da largura daquele da fortaleza dos Reis Magos para transpor. É difícil. É uma elite perversa que desde sempre carrega o troféu da pior apartação social, mantendo uma população miserável contida nos rincões do sertão, nas pequenas cidades e mais recentemente nos lúgubres conjuntos habitacionais que invadem a região metropolitana, onde essa elite vai purgar seus pecados, distribuindo feirinhas, sapatos e roupas para aqueles que precisam mesmo é de cidadania.

É vigiar e punir. Não é por acaso que a polícia militar é considerada despreparada e violenta. As igrejas também se curvam. Há interesses. Ainda é comum ouvir o você sabe com quem está falando? Cooptação. Aos jornalistas os restos de suas mesas em troca da divulgação de insignificâncias. Afinal é preciso estar na mídia. É farta a distribuição de medalhinhas e condecorações. Há parlamentares com o peito forrado delas. O Judiciário e o Ministério Público são adulados até o extremo da sabujice. É um servilismo sem fim. A troca de favores chega às raias do fantástico. Um grande número de cargos comissionados completam um cenário travado para o avanço da cidadania.

É uma feira de maldades. Não há respeito pelo voto do cidadão. Negociam-se os votos de regiões inteiras. De vez em quando chutam as canelas uns dos outros. É o máximo que fazem, pois não são inimigos, e por isso mantêm-se no poder. Siglas partidárias são siglas partidárias e ponto final. Discutem apenas a divisão dos votos. Dá para todos, ou quase dá. Depois é Rio, Paris ou Miami. E enquanto isso pelo menos uma dezena de jovens são assassinados a cada fim de semana na região metropolitana de Natal e ninguém diz nada! Fica tudo atribuído ao tráfico de drogas. Os jovens e suas famílias são assassinados mais de uma vez!

A Constituição de 1988, cidadã como sempre afirmou o deputado Ulisses Guimarães, patina nas terras potiguares. É uma elite que não vive sem a senzala e uma classe média ávida para também ocupar a Casa-grande. Nesse quadro não é difícil entender como uma Ação Popular que pede tão somente a retirada de um lixão da frente das casas das pessoas, permaneça sem solução, passados 10 anos e ninguém é punido por isso!

Claudio Guerra  em março de 2010