Tortura inglesa

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in jaderresende.blogspot

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Um frio intenso naquele junho de 1960. Agasalhava-me e lá pelas tres da tarde apanhava na casa vizinha a bandeja quente repleta de pastéis e coberta com uma toalhinha muito limpa,  bordada com pequenas flores azuis e ia com Alice até o Fórum vender os pastéis. O edifício imponente causava-me temor e também orgulho por entrar ali todo dia. A mãe de Alice é quem fazia os deliciosos pastéis, de carne, queijo e palmito. No Fórum, íamos até a cozinha onde era preparado o café e então em comitiva, cartório a cartório a vender os pastéis.  Além do pastel que comia com um prazer imenso, ainda ganhava um pequeno salário todo gasto no Cine Peduti, que ficava pertinho da minha casa. Eu adorava aquele trabalho.

Eu me lembrei disso agora em 2014 depois de ler alguma coisa falando da tortura inglesa usada pelas ditaduras  aqui no Brasil.

Naquele dia frio de junho enquanto aguardava na cozinha a saída da comitiva em direção aos cartórios, o senhor Antonio, funcionário da justiça, me chamou e entramos por um corredor onde canalizava um vento frio, parou de frente a uma porta e mandou que eu olhasse pelo buraco da fechadura. E então vi um garoto, talvez dez anos como eu, magrinho, roupas surradas e calças curtas como as minhas, de pé e com o rosto para a parede naquela sala branca e fria.  Senti um pavor imenso e uma revolta maior ainda. Disse-me o senhor Antonio que aquele garoto havia feito alguma coisa má contra a sociedade e estava sendo castigado.

De Claudio Guerra para o baú de Macau