Envelhecimento, dignidade e cidadania

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Angustia por cage1A belíssima crônica da poetisa Nair Damasceno, colaboradora deste baú de Macau trata de um assunto presente na vida de muitos brasileiros. Definitivamente, para o capitalismo os saberes que você acumulou durante sua existência só valerá se der lucro.

                                                                                                       Da equipe do baú de Macau

 

Qual a sua profissão?

                                                                                                             Por Nair Damasceno

Fora uma garota prodígio, sempre a primeira da turma. Suas dissertações eram lidas pela professora de português na sala de aula e recebiam elogios de todos os colegas. Assídua frequentadora da biblioteca do colégio conhecia quase toda a obra de Machado de Assis, Vitor Hugo e adorava as poesias de Castro Alves, Fagundes Varela e Olavo Bilac. A paixão pelos livros a acompanhou durante a adolescência, agora lia Freud, Sartre, Camus, João Cabral de Melo, Dostoievsky, Schopenhauer, Jorge Amado, curtia bossa nova e música erudita. Bacharelou-se em Direito e depois em Filosofia e publicou vários livros. Ao completar sessenta anos decidiu se aposentar e se dedicar mais a si mesma, decorar sua casa, cultivar orquídeas e conhecer outros países. Espalhou fotos em toda a sala: uma quando tinha dois anos, outras da infância, algumas da adolescência e muitas das atividades desenvolvidas durante sua vida profissional. Os diplomas destacavam-se pela moldura, seguiam-se as comendas, medalhas e outros títulos; sentiu orgulho da sua trajetória. Foi a uma repartição pública transferir contas de água, energia elétrica e IPTU para seu nome e pela primeira vez lembrou que tinha direito ao atendimento prioritário, retirou a senha e aguardou sua vez. A funcionária com um sorriso acolhedor iniciou solicitando os dados pessoais:

-Profissão? Local de trabalho? Onde a senhora trabalha? E registrou “aposentada”.

–Moça, aposentada não é profissão, é uma situação funcional do trabalhador.

- Senhora, eu tenho que escrever “aposentada”, a senhora não trabalha em lugar nenhum.

-Moça, não existe essa profissão, eu sou advogada, filósofa, tenho doutorado, sou escritora…

-Eu vou escrever “aposentada”, sou treinada para isso, por favor, preciso fazer meu trabalho!

Saiu em estado de choque: -Deus meu, Quem eu sou? Que pecado cometi para perder meu passado, minha história e minha identidade? “Aposentada” é ser nada!

Entrou em depressão e a encaminharam para fazer terapia. Foi. A psicóloga era simpaticíssima. Após algumas sessões sugeriu que ela fosse fazer dança de salão e participar de grupos da terceira idade.

Em casa ficou pensativa em sua sala cheia de fotos, fechou a porta e lá ficou.

Foi encontrada dias depois abraçada aos títulos e troféus.

No dia seguinte saiu nas páginas policiais dos jornais locais a seguinte manchete:

- “Idosa” é encontrada morta em sua residência.

                                                                                Nair Damasceno, em junho de 2014.