Elegia para o irmão marinheiro

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Navios em Macau. Década 1960. Arq: José Arimatéia Gomes

Navios em Macau. Década 1960. Arq: José Arimatéia Gomes

Velhos navios ancorados na baía, fumaça de chaminés manchando o dia de sol, um dia de “ar lavado”, como no poema de Antônio Nobre. Mastros se erguendo, barcos em repouso, âncoras mergulhadas. O carro seguia pelas proximidades do cais. Era como se eu fosse à tua procura, pisar no convés do navio que comandava, abraçar-te, apanhar as lembranças vindas do Norte, ouvir-te a fala mansa, quase um sussurro, em contraste com o teu porte viril, teu peito largo, tua aparência de marinheiro saudável, imune por muitos anos ao golpe traiçoeiro da morte.

Mas na realidade eu seguia o caminho do teu túmulo. Repousavas perto do mar, dos navios que chegam de longas viagens, dos pequenos barcos que se contentam com os roteiros marginando o litoral.

De repente te foste, sem dar trabalho a ninguém, tranquilo e manso como viveste. Restavam agora apenas perplexidade e revolta diante do irremediável. E ao seguir levando flores ao teu túmulo, passando pelas ruas que tantas vezes cruzei para te rever alegre e exuberante de vida; ao ver as embarcações ancoradas, as chaminés, os mastros, o mar, até cenas e o ambiente a que estão acostumados os marujos – cenas e ambientes que eram  a tua alegria sempre renovada –, lembrei-me dos versos de Cecília Meireles – que também já se foi – em sua Canção para Sarojíni:

“Passei por aqui

Como já não podes ver o que estou vendo

Vejo por ti.”

 

Por ti eu vi os barcos de nomes líricos, os velhos navios da Costeira e do Lloyd, os vapores da Companhia Comércio. Por ti eu vi os marinheiros espalhados nos botequins da Saúde, contando casos, pródigos no oferecimento de bebidas. Por ti eu vi, numa noite fria e úmida, os lampejos do farol da ilha Rasa. Por ti eu senti o cheiro da maresia num crepúsculo à beira mar. Por ti eu senti o cheiro da maresia num crepúsculo à beira-mar. Por ti eu imaginei rumos audaciosos, travessias de oceanos, surpresa e encantamento de novas paisagens. Por ti eu me investi na função de comando, traçando roteiros, consultando mapas, empunhando binóculos, vendo o clarão das cidades do litoral. Por ti entoei velhas canções de nautas saudosos de terras distantes. Em homenagem a tua memória consegui conter as lágrimas e reprimir a revolta causada por tua morte.

Hoje te quero e te compreendo muito mais do que nas horas em que tua presença física vinha atenuar as saudades de meses e meses de ausência nas tuas prolongadas viagens em navios que ainda hoje parecem te esperar.

Irmão marinheiro, os barcos ainda te reclamam através de seus apitos pungentes. O ranger das trancas nos iates  a vela é o lamento de quem ainda não se acostumou com a tua súbita partida para o nunca mais. E há marinheiros de fisionomias espantadas, eles que relutam em acreditar que não ouvirão mais tua voz de comando, teu jeito brando e determinado de dirigir e ordenar, tu, que a bem dizer, morreste no leme do teu barco.

Da obra: A Dissipação da Aurora, de Fagundes de Menezes, páginas 107/107.

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