Tardes na Praça do Mercado

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Tardes na Praça do Mercado

                                                                  Fagundes de Menezes

Mercado antigo4_1068415_sGregório chamou-nos com um ar despreocupado e me perguntou se eu ainda me lembrava das tardes na Praça do Mercado. Lembrava-me. Sobretudo seu Maneco Silveira, esguio, grisalho, quase imberbe, sempre em mangas-de-camisa, o suspensório de tiras largas, deixando as calças de brim cáqui acima dos sapatos mais de cinco centímetros, o andar exagerado flexionar das pernas, como se os pés a custo pudessem levantar-se do solo. Lembrava-me.  De tudo, de Dona Gertrudes cercada de banhas por todos os lados,  a fala untuosa, o cabelo sempre encoberto por um enorme lenço estampado, o palavrão saindo-lhe da boca de instante a instante, as ordens gritadas aos moleques empregados da pensão.

Nos dias de sábado, meu divertimento. Correrias em cavalo emprestado, cavalo dos matutos, era assim que os chamávamos, àqueles homens soturnos, de poucas palavras, os chapéus permanentemente enterrados na cabeça, rosto cheio de rugas, moços que fossem, a excrescência das esporas nos sapatos de couro cru.

Gregório tinha chegado, era novidade no lugar. Gregório ex-empregado do cinema de Seu Bichão, ex-velho de pastoril, ex-artista amador de uma troupe estimulada disfarçadamente pelo vigário por seu irmão funcionário público. Gregório era monopolizador de todos os assuntos. Porque Gregório disse, porque Gregório fez, porque na opinião de Gregório, porque a volta de Gregório… Gregório… Gregório.

Quando ele tinha ido embora fora um alívio, Gregório não servia para nada, antes pelo contrário, prejudicava a cidade, escandalizava com seus modos, suas idéias, o jornalzinho semanal que imprimia ridicularizando quase todo o mundo, as serenatas barulhentas em noites de lua-cheia, as corridas de motocicleta pelas ruas estreitas e empoeiradas, as mães pondo os filhos para dentro de casa, aos gritos, entre afitas e raivosa. E os versos. Os versos eram o que mais incomodava. Quadrinhas bem rimadas e metrificadas glosando a burrice do prefeito, os namoros escandalosos, a língua afiadas de muitas donas-de-casa, o desfalque no único banco-cooperativa do lugar.Mercado mun  Livro Mons Honorio

Agora Gregório de volta, como se fosse outra criatura. Homenageado, senhor de todas as atenções, quase mimado. E sem dar importância a nada disso. Nesse ponto, o mesmo Gregório. Outrora eram a maledicência, o rancor contra ele. Não ligava. Agora a bajulação através de elogios de corpo presente, dos convites para almoços, jantares, festas. Não ligava. Ligava a terra, um outro velho amigo – bem poucos, bem poucos, ele mesmo observava.

As tardes na Praça do Mercado, os mistos chegando – caminhões que transportavam homens, mulheres, meninos, na metade da carroçaria transformada em bancos duros, a parte de trás destinada ao transporte de gêneros alimentícios. Caixeiros-viajantes trazendo nas malas as amostras de seus produtos e as novidades da capital. O novo sargento do Destacamento Policial. Um ou outro desconhecido, na verdade considerado estrangeiro, que todos procuravam identificar.

Por que Gregório me perguntava se eu ainda me lembrava das tardes na Praça do Mercado? As tardes remotas a que ele se referia, os fins-de-tarde. Maneco Silveira quase antecipando seu sono de homem simplório, Dona Gertrudes preocupada com o jantar dos hóspedes e as filhas dos dois Magnólia, Arlete, Zuleica, esmagando os seios contra nossos corpos, entregando as coxas, na sala escura, onde se fingia jogar sueca.

Bem, eu começava a perceber: Gregório já não era o mesmo. Gregório sofria. Olhava o velho mercado, as barracas que ora o circundavam – apêndices que teriam a vista, construções toscas e assimetricamente dispostas – e depois parecia exausto e desencantado. Também , que desejava Gregório? Não sabia que era aquela sina do lugar? A sina da maioria das pequenas cidades nordestinas.

Maneco Silveira enterrado ao lado de Dona Gertrudes, e sobre a sepultura dos dois, cabras, vacas pastando. Arlete igualmente sob a terra, matou-a um parto duplo. Magnólia herdara as banhas da mãe e com admirável obstinação ornamentava há anos a cabeça do marido bem mais velho do que ela. Zuleica? Ninguém sabia de Zuleica, nem Gregório, outrora seu companheiro constante nos bailes, nos passeios pelas salinas em noites de lua, os baldes-de-sal cúmplices das semicópulas sob o arfar dos peitos adolescentes.

Gregório se descompunha como aqueles fins-de-tarde na Praça do Mercado. Sua interrogação era agora a certeza que ele procurava evitar. Lembrava-me, sim. Magnólia me eletrizava, muitas vezes o mundo sumia de nossas vistas, desaparecia Gregório, volatilizava-se. Arlete, Zuleica se esmaecia contra a tênue claridade projetada sobre a veneziana semicerrada da janela em ogiva, até que os gritos de Dona Gertrudes punham tudo em seus lugares primitivos: a mesa, o baralho, as cadeiras, Gregório, Zuleica, Arlete – esta em geral figura solitária, apenas agente catalisador – Magnólia, eu.

Páginas 49 a 51 – Cárcere das Águas – contos; Fagundes de Menezes, Editora Cátedra/Pró-Memória, Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro/Brasília, 1983