São Vicente: uma crônica de Vicente Serejo

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São Vicente [*]

Sao V icenteUm dia, há muitos anos, Monsenhor Honório, vigário de Macau e hoje santo, achou que era hora de fazer a reforma na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, com as suas portas, suas torres e seu sino humilde voltado para as águas do meu rio antigo. Fez tudo com a ajuda do povo. Mas, para fazê-la, foi preciso pedir a algumas famílias da cidade que hospedassem seus santos. E foi assim que numa tarde de festa São Vicente chegou para passar alguns dias na sala humilde da nossa casa.

Lembro muito vagamente – se é que lembro – de um alvoroço quebrando a vida das manhãs quietas e das tardes tangidas por uma aragem que vinha dos lados do mar. E São Vicente ficou ali, como se vivesse. Seu porte alto, de batina, abençoando a todos, os de casa e os de fora, que vinham visitá-lo. Meu avô Vicente – de quem herdei o nome e a gargalhada – era muito religioso. Tinha a devoção, como se coubesse a este primeiro neto, com seu nome, o dever de honrá-la para sempre.

Nunca fui santo nem humilde. Da humildade pura que eleva a alma humana. Mas, mesmo sendo pecador, nunca reneguei a devoção recebida. Anos e anos depois, quando visitei Lisboa a primeira vez, fui à sua igreja, vê-lo como um velho amigo de infância. São Vicente de Fora é assim chamada desde 1582, quando foi erguida a mandado de D. Afonso Henriques fora dos muros de Lisboa para guardar as suas relíquias que vinham do Algarve, daí ser o grande padroeiro da cidade.

Devo dizer – ficaria chato mentir a um santo – que seu prestígio não é maior que a devoção a Nossa Senhora da Conceição, mãe misericordiosa de todos os macauenses. Quem seria maior diante do dom de Deus, senão aquela escolhida para ser a mãe do seu filho e a quem rezamos nas trindades do anoitecer? Mesmo assim, quando fui vê-lo na igreja do Paço Patriarcal, na velha Alfama, trouxe um pedaço do mármore branco que encontrei no chão, abaixo de sua fachada que estava em obras.

Toda essa história tão pessoal é para dizer que um dia restará, sobre esta mesa, povoada de uma pequena humanidade de santos e objetos, e como restou sobre a mesa do meu avô – com seus pés torneados em peroba-do-campo e estirada em longas tábuas de cumarú, e que me acompanha há décadas – o mesmo silêncio que protege todas essas pequenas coisas inservíveis como herança. E recostada a essas velhas canetas imprestáveis, hoje mudas, sem palavras, oração de São Francisco.

Igreja Nossa Senhora da Conceição em Macau[RN]

Igreja Nossa Senhora da Conceição em Macau[RN]

E se tenho o privilégio de não pedir e rogar por tantas coisas conquistadas, na verdade sou pobre. De bens materiais, talvez nem tanto. Tenho a morada, o pão, e a roupa que veste as vergonhas, como na oração. Também as mais sublimes – escola para os filhos e netos, a profissão, o emprego, o sustento da família. Mas sou pobre. Como pobres são todos os homens diante da riqueza de sua humildade. E pelo tanto de sua imensa misericórdia para nos salvar dos perigos do mundo.

[*] Texto publicado originalmente no O Jornal de HOJE, p. 13, 7/8/2014 Coluna Cena Urbana do jornalista Vicente Serejo[serejo@terra.com.br].