Faroeste medroso, de Luiz Ernesto Guerra

0

faroesteO cenário não era o mais apropriado para um duelo. Os prédios de madeiras foram substituídos por beliches do mesmo material. A areia dos filmes hollywoodianos foi coberta por um piso de concreto. E o sol escaldante do deserto norte-americano cedeu lugar a uma lâmpada fluorescente e a uma brisa brasileira, noturna e refrescante, que atingia o “oeste distante” dos recôncavos daquele antigo casarão.

O relógio bateu meia-noite, e cansado daquele dia exauriente, aquele estudante magrelo decidiu que era a hora oportuna para dormir. Desceu aos aposentos situados no piso inferior daquela república imaginando que os demais, com quem dividia um quarto, já estivessem nos braços de Morfeu.

Porém, não foi isso o que aconteceu. O quadro que provocou tamanha perplexidade não era para remontar uma menor expressão: a luz do quarto estava acesa como pirilampos shakespearianos em noite de verão enquanto quatro colegas se encontravam sentados sem suas respectivas camas, com as pernas expostas em movimento pendular e com caras de paisagens, “contemplando o nada”, com os olhos quase cerrados pelo sono que os afligiam. O quinto elemento, aquele que todos temiam como o “bandido fora da lei” pela robustez de seus músculos salientes e a sagacidade de suas colocações, encontrava-se sentado no canto, apoiando um livro em suas mãos.

Todo esse espetáculo foi demais para o estudante magrelo, que decidiu, num ato de imensa coragem, interceder por si e pelos colegas ante a decisão do grandão de deixar a luz acesa enquanto estivesse concluindo sua leitura. Assim, questionou um a um se poderia acionar o interruptor de luz, obtendo respostas quase inaudíveis dos colegas, temerosos com a fúria do “cowboy” devido ao ato de “rebeldia”.

Após o levantamento das opiniões, o meticuloso magrelo, então, segurando um caderninho com suas anotações, dirigiu a palavra ao “cowboy” grandão. Suando frio e gaguejando com medo de sua reação, apontou para o caderno e informou que as regras estabeleciam que a luz fosse desligada às 22 horas, afirmando a posição referendada pelos demais colegas. E ainda indagou o seu algoz, após um silêncio sepulcral e olhares escrutinados e apreensivos dos colegas que se preparavam para a audiência de um duelo épico: “Você se incomodaria?”, perguntou.

Astuto como sempre, e desejando desvendar até onde iria o medo dos demais, o “cowboy” respondeu, dando um tom grave à sua serena voz e transparecendo certa irritação em suas expressões faciais: “Sim, isso me incomodaria bastante!”. A reação do público foi instantânea à apresentação das “armas” de cada um dos desafiantes, com o ar de espanto entoado em “uuuuh” – o que fez o grandão decidir testar a coragem e o poder de persuasão dos presentes, questionando-os individualmente se eles estavam realmente incomodados com a luz acesa. E as respostas foram as mais variadas: desde “nãos” sôfregos e objetivos até um “Não, não, não, macho véi! Aliás, eu ia até começar minha leitura aqui e fazer um cafezinho pra gente… Quer um pouquinho?”.

Em seguida, após uma sarcástica gargalhada em razão do sentimento de medo que contaminava os presentes, e sentindo-se derrotado pelo discurso do seu oponente, decidiu o esperto “vilão” encerrar o “combate”, desarmando-se de seu livro, sua principal munição para aquele duelo argumentativo. Desligou o interruptor de luz e deixou que os seus pares descansassem e refletissem sobre o próximo duelo que somente o “faroeste medroso” seria capaz de presenciar.

 

Luiz Ernesto Guerra, agosto de 2014