A barrica encantada da Ponta de Pedra

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Diogo Lopes, 2010, J.R. Guerra

Diogo Lopes, 2010, J.R. Guerra

Nos tempos que não havia estrada de Barreiras para Diogo Lopes, navegava-se por entre as gamboas  e se não tivesse embarcação o caminho era a praia. Podia-se andar seguramente nas marés vazantes a pé ou a cavalo naquela região. Entre Barreiras e Diogo Lopes  é meia légua e não mais que isso. Meia légua de tirar o fôlego de tão bonito. Dunas e manguezais. As dunas avançando sobre os manguezais e uma estreita faixa de praia, em alguns lugares quase desaparecendo, pois a cada dia tudo vai modificando.  No caminho existe água jorrando Ponta de Pedra, água das dunas. Era dali que até os sessenta os barcos apanhavam a água para matar a sede do povo de Macau. Era a melhor água da região dizia Seu Nininho, moço de convés dos barcos aguadeiros da prefeitura de Macau.

Mas a história é esta e contou-me a amiga diogolopista Maria Madalena: Um certo dia Joaquim Madalena, homem das lides do mar e morador de Diogo Lopes atravessava o belo caminho de Barreiras para Diogo Lopes e ao passar pela Ponta de Pedra, no pingo do meio dia, viu – e ele não era homem de mentiras –  rolando pelas barrancas uma belíssima e brilhante barrica de cristal que dentro tinha uma galinha e muitos pintinhos, tudo de ouro. Ele não foi o único a ver aquele tesouro que só era visto no pingo do meio dia.  Comentava-se que era um tesouro destinado a uma pessoa especial e todos os que tentaram apanhá-la não conseguiram, pois a barrica desaparecia, ora na areia, ora na maré, nas gamboas e nos manguezais. Era um mistério.

Neste dia de muito sol, Joaquim Madalena  quando viu a barrica rolando pelas dunas correu e preparou-se para apanhá-la junto do barranco antes que ela caísse na maré, mas a barrica rolou para junto de uma castanholeira e desapareceu num buraco por entre as raízes da enorme árvore.

Um dia, aportou em Diogo Lopes um pescador que  vinha da Baía da Traição pescar no mar de Diogo Lopes. Ocupou um casebre abandonado e distante do povoado.  Veio sozinho o que não era normal, pois os pescadores vinham de outras praias sempre em grupos com muitos barcos e extensas redes de arrasto. Era um homem calado. Comprava o que precisava numa pequena bodega do povoado onde também vendia seus poucos peixes.  Ele tinha longas e duras barbas avermelhadas que pareciam patas de caranguejos. Os que passaram à noite perto de seu casebre contam que ouviram uma prece como um choro sofrido e lamentoso sob uma luz muito fraca de vela ou pequena lamparina. Este pescador passou sete luas cheias em Diogo Lopes e assim como chegou foi embora sem falar com ninguém. E nunca mais se ouviu falar da barrica encantada.

De Claudio Guerra para o baú de Macau