Cangulu

0

 

Diogo Lopes, 2011, Foto de Alex Gurgel

Diogo Lopes, 2011, Foto de Alex Gurgel

Era pescador dos mangues e gamboas. De vez em quando se aventurava com seu botezinho pelo grande mar e navegava até a Furna do Tubarão onde tinha peixe grande. Numa tarde voltava com a maré secando e viu que não alcançaria o seu porto e então entrou por uma gamboa mais profunda e aportou próximo da Ponta de Pedra. O local era seguro para as embarcações.  Na maré, junto do manguezal uma mulher bonita meio mergulhada na água lhe disse:

– Pescador eu sei que você tem aí um Cangulu que é o meu peixe preferido, você me dá este peixe?

– O pescador aperreou-se, pois sua mulher só gostava de Cangulu e ele sempre prometia à mulher a quem muito amava que pescaria um Cangulu para ela. E nesse dia, entre os peixes havia muitas Biquaras e somente um Cangulu e então ele negou e disse que daria uma Biquara, mas não o Cangulu e foi embora porque a mulher não quis a Biquara e nenhum outro peixe. Foi para casa com o pensamento naquele episódio que o intrigava. Como aquela mulher bonita sabia que ele pescara um Cangulu?

Quando entrou pelo beco da sua casa olhou distraidamente pela janela da casa de Simão de Bela e viu na parede um quadro com um retrato parecido com a mulher que lhe pedira o peixe. Aperreado chamou Simão e quem veio foi a mulher dele que tinha comprado a quadro de um vendedor ambulante que passara por ali no dia anterior.

– Homem de deus você negou um Cangulu para uma sereia e é ela que protege os pescadores, disse-lhe  Abençoada, a mulher de Simão de Bela.

Chico da Macaca voltou correndo para a Ponta de Pedra, mas não encontrou a sereia e então daquele dia em diante toda vez que pescava um Cangulu devolvia ao mar para que a sereia comesse.

Das memórias da amiga diogolopista Maria Madalena

De Claudio Guerra para o baú de Macau