Noventa e nove anos

0

h 063Ninguém chega aos noventa e nove anos impunemente. Se não fosse o Parkinson, lamentam… São momentos de sonhos da infância e juventude e de toda a vida, “tudo junto e misturado”, lamentam… Por vezes lucidez lúcida corrigindo a gramática e mandando abraços aos netos distantes.  Pela manhã curam-na dos engasgos e pela tarde dos membros travados, lamentam. Canta ou declama o  que ainda surge na memória:  A priquita da Rosita /não tem olho nem pestana./ Foi o rato que roeu, / Pensando que era banana. E sorriem e nem lamentam mais. E animada com a plateia ocasional então canta  sorridente: Papagaio louro do bico dourado / Quem é bom já nasce feito / O bode não tem barba nem bigode. E sorria novamente e as bisnetas pedem: — Cante mais vovó! E ela estimulada sorria um riso solto naquele rosto sem rugas e novamente canta com aquela voz  que cantou hinos nas igrejas e marchinhas nos comícios, mas o que se lembra mesmo é do tempo de criança:  Vou repartir o boi / Com os amigos meus / Senhor Chico Lalau, / Senhor Manoel Mateus.

Uma porta à sua espreita e as tardes que vão se somando à sua existência. É a vida.

De Claudio Guerra para o baú de Macau