Um domingo de muita fé no Barro Vermelho

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Jambeiro 1A luz do sol por entre o jambeiro entrava pela janela e desenhava na parede da sala figuras estranhas. Naquele ambiente de muita fé, sagrado até, poderiam imaginar que era a presença do Espírito Santo que acompanhava o evangelho lido com muito fervor. Uma cristã preparava a sua morte. Não era uma tarde como as outras.

Padre Inácio chegara a pouco trazido que foi do seminário. Era o que se poderia dizer um santo pelos seus gestos e por sua figura que aparentava bondade e compreensão. Largara tudo para atender aquela beata que durante muitos anos participara das congregações na pequena cidade onde fora o pároco por muitos anos.  E agora todos morando na capital e muito mais distantes um do outro, era uma oportunidade de revê-la e ajudá-la a reforçar sua fé. Deixou seus afazeres do seminário e veio com todos os paramentos para uma extrema-unção. Faria a confissão dos pecados e daria a comunhão e ela, se não pecasse dali em diante, descansaria em paz e ganharia o céu como estava previsto. Enfim, a salvação eterna.

Padre Inácio leu o evangelho e olhou piedosamente para aquela mulher na cadeira de rodas, com as mãos tremulas do Parkinson e que olhava interrogativa para ele. Ela lúcida, rezou e acompanhou tudo participando da cerimônia com um olhar sincero de arrependimento. Antes da comunhão era preciso a confissão dos pecados. E padre Inácio ficou imaginando que pecados teria aquela cristã sem sair de casa e grudada à cadeira de rodas. Pensou um pouco e indagou:

– Os maus pensamentos. Teve maus pensamentos? Desconfiou de alguém que não merecia? De uma empregada? De um neto?

Ela fechou os olhos com uma lágrima rolando quase imperceptível com sinal de profundo arrependimento. E padre Inácio continuou revirando sua memória em busca de outros pecados que ela poderia ter cometido: — Praticou a gula? Soberba? Ódios?

Ela respondeu a tudo com as lágrimas brotando, agora densas e padre Inácio convenceu-se  do arrependimento e preparou-se para a benção da hóstia.

Por fim,  seus olhos se fecharam e ela recebeu a hóstia. Estava salva.

De Claudio Guerra para o baú de Macau