Tio Agostinho

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Década 1950 Rio Assu em Macau

Década 1950 Rio Assu em Macau

Corria os vinte em Macau e no mundo mal festejavam o fim da primeira guerra mundial e já se falavam em outras guerras e o embate entre o socialismo e o capitalismo. Em Macau já se faziam greves e até greves de solidariedade. O Brasil de voto censitário seguia elegendo militares para presidente: é uma república de militares e só quem manda é São Paulo, Rio e Minas.

Para ela, menina, o seu problema e a sua guerra particular era atravessar o rio para visitar o Tio Agostinho. Iria sem ninguém da casa saber. Desafio grande e perigoso. Em Macau também corria o rio manso no seu embate com o mar. Lá ia o rio e lá vinha o rio. Só nos quatro e cinco é que ele ia e não voltava. Barcos e barcaças entravam e saíam com cuidado para não bater nas croas que eram muitas. E lá do outro lado do rio era a Ilha de Santana onde morava o Tio Agostinho, um homem bom e rude, educado nas lides do mar e dos currais de gado, trabalhando pesado desde menino. Aprendeu a defender-se dos males daquele mundo do trabalho dos homens rudes. Eram rudes e bons camaradas. Tio Agostinho era um homem bom.

Naquele ano, ela finalmente na Escola Duque de Caxias na festejada Rua da Frente, a rua da elite de Macau e seus casarões com sacadas. Uma felicidade imensa. E no recreio olhava para o outro lado do rio e pensava no Tio Agostinho. Iria, algum dia iria até lá. Guardou o pouco dinheiro da merenda que seu pai lhe dava e depois de juntar por muitos dias, saiu para o recreio e não voltou mais naquele dia para a escola.

O barqueiro relutou, mas o dia fraco o convenceu para levar aquelas passageiras ainda crianças. Sabia da travessura e conhecia a família inteira delas. Algum dia contaria para os pais. E então, com a cumplicidade do barqueiro lá foi Hilda com sua prima Líbia visitar o Tio Agostinho numa aventura que narra com os olhos a brilhar, até hoje aos noventa e nove anos.   

De Claudio Guerra para o baú de Macau