Entrevista para o livro Impressões Digitais de Thiago Gonzaga publicado em agosto de 2014

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1-Claudio Guerra onde você nasceu, conte-nos um pouco da sua infância e juventude?

R- Nasci numa pequena cidade no interior paulista, no território “caipira” e tenho muito orgulho de ter nascido lá. A cidade era uma ONU, pois de quase todos os lugares do mundo havia migrantes que foram para lá reconstruir suas vidas. Muitos italianos, como o meu avô, alemães, japoneses, árabes e judeus de várias nacionalidades e brasileiros daqui do nordeste. Era uma cidade agradável e que nas décadas de 1970 e 1980 estava entre as 10 cidades de melhor qualidade de vida do Brasil e era uma cidade de pequenos produtores rurais e urbanos e de operários da indústria do óleo. Eram 3 empresas que moíam o caroço de algodão e o amendoim. Hoje, a cidade tem  50 mil habitantes e está cercada de canaviais por todos os lados o que só é bom para a grande burguesia que é dona, mas não mora lá. A população da cidade perdeu muito na qualidade de vida. É trágico ver que quanto mais o capitalismo avança, mais piora as condições de vida da população. A minha infância foi de menino pobre, mas com grande dignidade – é só ver as fotos da época como éramos dignos em nossa pobreza.  A minha juventude foi marcada pelo golpe de 1964 quando tinha 14 anos.  Recordo o meu pai dizendo que não entendia como a ditadura só prendia os homens bons e honestos da cidade.

2 – Quais foram as suas primeiras leituras literárias?

Tenho boas recordações das primeiras leituras. Lembro-me de ter trocado aos 10 anos a minha bola de capotão pelo livro velho e ensebado das Estórias que o Vento Escreve. E eu que adorava futebol e tinha um “campinho” no quintal da minha casa. Os meus amigos do futebol não me perdoaram e fizemos uma vaquinha para comprar outra bola. Recordo também o meu pai trazendo-me livros da biblioteca do clube onde trabalhava e penso que ao ler as Histórias dos Mares do Sul decidi que um dia iria morar a beira-mar, eu que morava a 800 quilômetros do mar. Por fim, realizei meu sonho na década de 1980 ao mandar construir uma casinha a beira mar na restinga luminosa da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Ponta do Tubarão em Macau, aonde vou sempre que posso.

3 – E seus primeiros escritos falavam sobre o que?

3 – Gostava de escrever redações, e sempre tive pouca paciência com as desigualdades e menos ainda com as injustiças. Em geral tratava dessa temática.

4 – Quando e qual o motivo de você ter vindo para o Rio grande do Norte? Qual foi a sensação quando você chegou aqui no inicio dos anos 80?

4 – Foram vários motivos para que eu viesse para o Rio Grande do Norte. Naquela época era funcionário do Banco do Brasil e programei para ficar 2 anos em Macau e depois ir para a região Norte.  Gostei imensamente daqui e acabei ficando. O povo simpático e acolhedor e um lugar onde poderíamos dar a nossa contribuição cidadã para a melhoria da vida de todos. A cidade de Macau em 1981 parecia uma cidade destruída por bombas. A cidade ainda sofria os efeitos da mecanização das salinas que expulsou grande parte dos trabalhadores da região. Era uma cidade de terra arrasada. Fora arrasada pelo avanço do capitalismo.  Depois,  em meados da década de 1980 a retirada dos subsídios dos financiamentos agrícolas expulsou os pequenos agricultores da região. Foram eles que criaram o cordão de miséria nas médias e grandes cidades, expulsos que foram da zona rural.

5 – Você cursou História, relate-nos um pouco do seu período da faculdade, Claudio Guerra foi um bom aluno? Qual o motivo da escolha do Curso?

5 – A escolha do curso foi consciente, ajudado pela proximidade, pois a UNESP, à época Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras está na cidade de Assis, 30 quilômetros de Paraguaçu. Estudava a noite e saía do trabalho às 18 horas e às 19:30 tinha que estar na faculdade. O Curso de História da UNESP- Assis sempre esteve entre os melhores do Brasil.  Quando saí de lá em 1981 deveria escolher entre fazer o mestrado ou continuar no Banco do Brasil. Optei pelo Banco do Brasil e não me arrependi, penso que abri mais os meus horizontes vivendo no Nordeste.

6 – Claudio nos relate um pouco da sua obra de estreia “Ninguém para a Coréia”, do que trata, de como ela foi construída?

6 – Como afirmou Fernando Pessoa:  Não meu, não meu o quanto escrevo. Há quem o devo? Eu devo a muitas pessoas o primeiro romance Ninguém para a Coréia. Passei vários anos em Macau buscando documentos para  resgatar a luta dos comunistas na região e não encontrei  nada. Em 1998 o amigo Benito Barros, falecido em 2010 e que havia publicado Lugares e Falares Macauenses, entregou-me cópia de dois Auto de Prisão da década de 1950 e os dois tratavam da luta internacionalista dos comunistas de Macau. Um deles ocorrido em Macau e o outro em Pendências. Debrucei-me sobre o Auto de Prisão em Macau que tratava das lutas locais, nacionais e internacionais, contra o envio de tropas para a invasão da Coréia como exigia o governo norte-americano. Comecei a escrever o romance em 2005 já morando em Natal e então tive a ajuda da amiga Professora Marlucia Paiva que me levou para conhecer o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Comecei a pesquisar os jornais do final da década  de 1940 e começo da década de  1950 e percebi que parte do romance estavam naquelas notícias que tratavam do começo da guerra fria. Pesquisei por oito ou nove meses e sou grato ao Instituto Histórico pela conservação dos documentos que tornou possível o meu trabalho literário.

7 – E o seu segundo livro, “Alcanorte”, segue a mesma linha do primeiro?

7 – Quando cheguei a Macau em 1981 e me deparei com aquela construção imensa na entrada do istmo, pensei  tratar-se de indústria da produção do sal, pois não tinha informações sobre a fábrica de Barrilha. Depois fui  assistindo toda a farsa em torno da fábrica, onde enterraram quase dois aeroportos de São Gonçalo sem produzir nada. É o dinheiro nosso que só serviu para enriquecer alguns empresários.  Trata-se de um engodo com a concordância de todos os governos e de quase todos os parlamentares do Rio Grande do Norte. Pesquisei por quase 5 anos para escrever o livro. Juntara, desde a década de 1980 muitos documentos sobre o projeto da fábrica e tive a colaboração do amigo e lutador social João Eudes Gomes que me forneceu documentos preciosos para o livro. A Alcanorte foi mesmo da farsa às cinzas como o nome do livro.

8 – Você tem um romance muito interessante que se chama “Marinheiro Só”, ele trata de uma situação real?

8 – Marinheiro Só foi um livro escrito com muita dor e para participar do debate da Comissão de Verdade. Conhecia a luta, mas não profundamente,  daqueles heroicos brasileiros que não se  curvaram à ditadura,. Quando conheci Genivalda e demonstrei minha vontade de escrever sobre o episódio que envolvia o assassinato do seu marido José Manoel da Silva, militante da VPR, a Vanguarda Popular Revolucionária, não imaginava o quanto de sofrimento e dor Geni, os filhos e as famílias dela e de José Manoel passaram. Foram três anos dedicados à pesquisa e conversas com Geni e seus familiares para a conclusão do Marinheiro Só. O livro fala do chamado Massacre da Chácara São Bento em Recife com os episódios da traição do Cabo Anselmo, a ação da equipe assassina do delegado Fleury Filho de São Paulo e do assassinato de José Manoel, da paraguaia Soledad Barret entre outros que foram torturados e assassinados pela ditadura em 1973. O livro fala como o nosso país poderia ter avançado  na vida com dignidade para todos com as reformas de base do Presidente João Goulart e como a ditadura “vendeu” o Brasil ao imperialismo em 1964. O livro fala de como os heroicos marinheiros brasileiros foram vítimas da nossa burguesia sempre pronta para fazer os acordos espúrios, desde que lucre muito. É uma história da canalhice de parte da burguesia que amesquinhou parcela das nossas forças armadas, colocando-a a serviço do imperialismo, notadamente o norte-americano.

9 – Quais são suas outras obras publicadas?

9 – Publiquei até agora dez livros. Além dos já comentados, publiquei em 2009 o livro Pelo Direito de ser bonsai que fala da lutas das rádios comunitárias; em 2010, os Contos do Pontal do Anjo,  histórias que recolhi na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Ponta do Tubarão onde vou desde  que cheguei em Macau em 1981, ainda nesse ano o livro Cidadãos Off- Line e o lixão do Maruim de Macau, que trata da luta do cidadão João Eudes Gomes pela retirada do lixão do perímetro urbano de Macau e ainda em 2010 o livro Textos de Macau que foram textos escritos para o Jornal de Macau onde publico desde 1994; em 2011 um livro de contos Mulheres Ciumentas e outros contos com situações cotidiano; em 2012 as Pequenas histórias do neoliberalismo, situações da vida sob o sistema excludente e em 2013 o livro Orçamento Participativo e ação popular que trata de uma ação popular impetrada por cidadãos potiguares para ver cumprida em Macau a lei da participação popular.

10 – Claudio e esta obra Textos de Macau, do que ela trata?

10 – Em Textos de Macau eu selecionei os textos que considerei mais significativos dos problemas de Macau. Vivendo quase vinte anos em Macau pude perceber o quanto os poderes estão desligados do povo. Numa cidade pequena é bem visível o Estado patrimonialista. É um Estado que funciona só para os de cima. Os meus textos tem a pretensão de mostrar isso.

11 – E aqui no RN, você conhece alguns nomes da nossa literatura, pode citar alguns que aprecia?

11 – Aprecio muito a literatura potiguar e sempre aprendo com os autores potiguares.  A nossa prosa e poesia é de muita qualidade e não deve nada ao que é produzido no resto do mundo. O nosso problema é o colonialismo impregnado em quase tudo e que só valoriza o ungido no exterior e no sudeste do Brasil.  Para não ser injusto não vou citar autores, porque de cada obra sempre acrescento um pouco mais aos meus conhecimentos.  Eu gostaria também que a produção científica das nossas universidades alcançasse um número maior de leitores, é para ser mais difundida. Existem trabalhos de grande qualidade científica e literária de mestrado e doutorado que deveriam ser publicados em formato livro, pois seriam de enorme contribuição para a melhoria da nossa sociedade em todos os campos.

12 – Que tipo de arte você aprecia além da literatura?

12 – Gosto de desenho e pintura e de vez em quando me aventuro a produzir alguma coisa.

13 – E sobre o incentivo à leitura no Rio Grande do Norte, existe? Qual a sua opinião?

13 – Não há seriedade na maioria dos projetos de estímulo da literatura e leitura. As festas literárias são festas e muito pouco literatura e tem servido para massagear egos e render  bom dinheiro para poucos.  A Biblioteca Câmara Cascudo está destruída e abandonada e poucas vozes clamam contra o absurdo.  Penso que o valor gasto numa festa literária como as que acontecem aqui, daria para criar um programa sério de estímulo à leitura e produção literária. É difícil quando tudo se torna mercadoria. A literatura, assim como a saúde das pessoas não deveria virar mercadoria. Para muitos autores é complicado ser garoto-propaganda da sua obra, aliás, estamos no tempo que o autor vale mais que a obra. Está errado, pois nem sempre um considerado bom  autor produz boas obras. Nem tudo que Garcia Márquez escreveu foi bom.  As grandes editoras não publicam autores novos e só editam autores já consagrados e que estão na mídia há muitos anos, e assim o investimento na propaganda é inexpressivo. Recordo que um dos melhores romances de Garcia Marques vinha com o seu nome em letras garrafais e o nome da obra quase desaparecida na capa. Eles estavam “vendendo” o autor e não o belo romance. E para eles pouco importa se a obra é boa ou ruim, importa vender a mercadoria e realizar o lucro, ter o lucro. Eles não estão preocupados se o comprador vai ler ou não, estão preocupados com a quantidade de livros que venderão.   Em Macau existe um chamado  Complexo Literário, assim um nome todo pomposo que não tem as obras do homenageado Professor Benito Barros, poeta  macauense falecido em 2010, o teatro da cidade foi destruído pelos prefeitos e a Casa da Cultura pelos governadores.

14 – O que falta para o escritor local romper com os muros provincianos?

14 – Penso que enquanto a produção literária for mercadoria o espaço fora do Rio Grande do Norte é muito pequeno, pois  o interesse do mercado não é o nosso e então ele obsta a bela produção literária dos autores potiguares, ou dá espaço apenas quando há exotismo.  Fora do Rio Grande do Norte só excepcionalmente conseguimos alguma consideração. A exceção é Câmara Cascudo que precisou de muitas décadas para ver  a sua produção literária reconhecida, mas isso foi no passado quando o mercado era menos faminto.  Hoje ele não teria o mesmo reconhecimento. Nos dias atuais, quando nossas obras aparecem em alguma mídia fora daqui é para comemorarmos.  Tratando de questões globais e tomando como microcosmo a cidade de Macau, consegui que três dos meus livros fossem citados na Caros Amigos, uma revista de âmbito nacional. No caso do livro sobre a Ação Popular contra o lixão de Macau conseguimos uma entrevista na Rádio Justiça de Brasília que me entrevistou juntamente com o Juiz Marcus Vinícius Pereira Junior, que determinou o fim do lixão.

15 – Em sua opinião, a literatura tem alguma obrigação?

15 – Tem a obrigação de ser literatura e recorro a Umberto Eco que afirma que as obras literárias nos convidam à liberdade de interpretação.  Interessante também o recurso do escritor de utilizar a literatura nas suas obras. Karl Marx, por exemplo, em todos os seus textos, inclusive no O Capital buscou suporte na literatura para exemplificar  ou ilustrar conceitos e fatos.

16 – Qual a sua maior preocupação ao escrever?

16 – Primeiro, o tema que deve ser de interesse coletivo e depois, muita pesquisa.

17 – Em sua opinião escrever no Brasil é uma tarefa ingrata? É ainda uma atividade marginalizada?

17 – É pura criação e dá muito prazer. Publicar o que se escreve é que é o problema, pois o capitalismo exige mercadoria que venda e nem sempre literatura vende. Não é uma atividade marginalizada, pois o povo tem um respeito muito grande pelos escritores e suas obras.

18 – E os planos literários para o futuro?

18 – Estou pesquisando sobre um personagem da história da colonização e que viveu no Rio Grande do Norte no século XVII. É um personagem fascinante e por isso mesmo, raramente citado na historiografia oficial e quando citado, tratado como um pústula o que é uma grande injustiça. Penso que ele foi um dos maiores amigos dos potiguares e pretendo escrever sobre o tema que considero importante.

19 – Quem é o escritor Claudio Guerra?

19 – Procuro me pautar por duas divisas, a de Karl Marx que afirma de cada um segundo a sua capacidade para cada um segundo a sua necessidade, e mesmo não sendo cristão, o abraça o teu irmão atribuído a Jesus Cristo que não impõe condições. O certo é que não somos iguais e cidadania não rima com esmolas. O homem precisa ter um trabalho – que afinal, para os cristãos é um castigo divino – e ganhar o suficiente para manter sua família. Nesse sentido, eu penso que contribuo com  os meus escritos na medida em que abordo os nossos problemas expondo-os ao debate.  Além dos livros, escrevo para o jornal Folha de Macau desde 1994  e para o site www.falariogrande.com.br onde sou colunista. Escrevo regularmente para o site www.obaudemacau.com  do qual sou editor.