Citio Macau

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Barreiras, 2010

Barreiras, 2010

Eram os noventa e quase todos os sábados fazia logo cedinho um ritual feliz, muito feliz. Reunia minha família e deixava Macau com seu cheiro forte de águas salinas e ia para Barreiras, pequeno distrito a beira mar onde temos uma casinha. Só retornava às segundas,  recomposto, depois de navegar de manhã à noite por mares e gamboas e caminhar pelas dunas até os cajueiros que inapelavelmente estavam sendo cobertos pelas dunas.

A estrada até Barreiras tinha pouco mais de vinte quilômetros e era muito interessante. Passava sobre aterros estreitos erguidos nas grandes áreas dos salgados e apicuns, onde o mar só avançava nas marés de lua cheia.

Numa das curvas da estradinha daquela planície beira mar, via-se uma pequena casa, um estábulo também pequeno, uma porteirinha rustica de madeira encimada por uma tábua larga onde estava escrito em letras incertas  Citio Macau.

Por várias vezes chocou-me ler a pequena placa, eu tão acostumado, enquadrado e formatado a escrever, ler e conferir nos cadastros e cédulas rurais de financiamentos a palavra Sítio.

Bem, a mensagem me fora passada e bem passada e eu sabia perfeitamente que ali era uma propriedade rural onde se criava bois, cavalos, cabras e galinhas e onde se plantava milho, feijão e outros cultivos, enfim um Sítio ou Citio como estava escrito.

E então, se a escrita é uma convenção porque o estranhamento? Indagava-me.

Depois fui ler Umberto Eco. “A língua, por definição, vai aonde ela quer, nenhum decreto do alto, nem por parte da política nem por parte da academia, pode barrar o seu caminho e fazê-la desviar-se para situação que se pretendam ótimas”, [Umberto Eco na página 10 Sobre a Literatura]

Bem, percebi então que naquele caso a situação era ótima e me convenci.

 De Claudio Guerra para o baú de Macau