Fuga

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Família 1970 em Paraguaçu Paulista

Família 1970 em Paraguaçu Paulista

Eram os setenta da ditadura. A cidadezinha pautava sua vida durante o dia pelos apitos da fábrica da Anderson Clayton que moía algodão e amendoim:  ás sete, às doze, às dezesseis e às dezoito. Eram os turnos que interessavam aos trabalhadores daquela fábrica e à cidade com suas horas certas.

À noite a cidade era pautada pelo relógio da igreja católica que ficava num belo jardim cercado de coroas de cristo, de grandes árvores e pedras portuguesas. Suas badaladas, de meia em meia hora, ouviam-se até nas chácaras e sítios afastados da cidade.

Quando estávamos na rua caminhávamos gritando bem alto os números das badaladas sob o protesto de mamãe que nos admoestava que aquilo era falta de educação.  Nossa casa ficava numa periferia próxima ao cemitério e a cerca de madeira estava caindo aos pedaços. As dobradiças do grande portão haviam quebrado há muito tempo e nos acostumando a não ter que abrir portão, o que adorávamos ao chegar de bicicleta e pedalar até o fundo do quintal. Naquele tempo de perigoso só os cavalos que eram muitos e viviam soltos nas ruas e que poderiam entrar e destruir nossa horta de alfaces e almeirões.

Certa noite, das muitas de insônia que vivi, construía meus castelos de riqueza contando as badaladas do relógio da igreja. Já contara as doze e chegara às duas sem o sono chegar. Pouco depois das duas ouvi passos junto da janela do meu quarto e pensei logo num cavalo que entrara no quintal para comer as hortaliças. Saí debaixo dos cobertores e senti um frio intenso e quando abri a porta de cozinha deparei-me com um homem que não pude ver como era pois estava escuro. Gritei o mais alto que pude e acordei todos da casa. O homem também se assustou, mas não correu e saiu andando sem muita pressa por onde entrara. Meu pai armou-se de uma vassoura e queria dar uma surra no homem. Eu e mamãe o contivemos, afinal o homem já estava indo embora reclamando não sei do que, mas estava chateado. Visivelmente chateado.

De Claudio Guerra para o baú de Macau