Fuga número dois

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1993 e as eleições diretas depois de longa ditadura. A cidadezinha encerrava o sonho da fábrica de barrilha e reforçava o sonho do petróleo. O sal continuava insípido assim como a pesca.

Macau [RN]

Macau [RN]

Seriam pouco mais de 9 da noite e ele tentava  desvendar o Carta Certa — um programa redator ainda no tempo do DOS —  no computador que comprara há pouco. Um barulho surdo vindo do quintal, como um coco verde caindo na calçada do quintal,  onde os seus filhos andavam de bicicleta tirando fino dos coqueiros.

Disse Maria da Purificação, sua mulher: — Uma pessoa pulou para o quintal.

Ele retrucou: — Foi um coco e justificou para si mesmo que  afinal os coqueiros estavam altos e frequentemente caíam cocos fazendo  aquele barulho surdo.

Por vias das dúvidas, foi verificar e ao abrir a porta que saía para o quintal deparou-se com um rapaz talvez  de uns 15 anos, franzino, de camiseta vermelha, calção surrado e descalço.

O rapaz assustou-se mais do que Jorge, que passado o impacto, disse-lhe: –O que aconteceu?

O rapazinho ainda amedrontado e gaguejando disse-lhe que estava na pracinha junto ao rio e a polícia chegou atirando contra ele e os amigos que estavam fumando maconha. Fugira e acabara ali naquele quintal depois de pular um muro de mais de tres metros.

Jorge compadeceu-se e pediu  que ele sentasse numa cadeira ali no quintal  e aguardasse.

Saiu depois de quarenta minutos, desconfiado e suplicando para que Jorge não o entregasse à polícia. Disse a Jorge  que o pai trabalhava numa salina, mas fora demitido e agora era pescador. E mais não disse e mais Jorge não perguntou.

De Claudio Guerra para o baú de Macau