Um diálogo conveniente

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Cage, deus-ex-machina, 2014

Cage, deus-ex-machina, 2014

– O que? Eu não! Sou homem da ciência e por isso não tenho certeza de nada! Respondeu-me com rispidez e até com falta de educação. Os que estavam próximos ouviram a altercação e olharam espantados.

Fitei assustado com o meu contendor e mais ainda com todo aquele povo que me olhava apiedado e acovardei-me. Acolhi o golpe e calado pensei na injustiça cometida,  pois eu não merecia  e fiquei recordando a minha única e definitiva desavença com o padre Teófilo. Eu lhe perguntando como era aquela história de um só deus em tres pessoas. E ele me maltratando com aquelas palavras que agora — passados quase cinquenta anos ainda estavam na minha memória: — O que? Eu vou expulsar você do catecismo! — Você quer saber mais do que eu que sou padre. — Você tem só dezesseis anos e quer saber agora o que nós também não sabemos. E recordava o seu rosto cada vez mais vermelho  e eu assustado e chorando, calado.

  – Fé meu rapaz! Fé! – recomeçou padre Teófilo aos gritos. — Não discutimos a fé e se você não tem fé não venha com suas perguntas idiotas! Esta frase foi dita aos gritos me desmoralizando diante de todas aquelas crianças que olhavam assustadas e às quais eu ensinava todos os domingos as Ave-marias, os Pais-nossos, o Credo e outras orações que eu ensinava com fervor, mas sempre querendo conhecer  tudo na  profundidade.  Esse era o meu problema: querer conhecer tudo e nunca aceitar dogmas ou coisas que não se explicavam. Na minha lógica tudo deveria ter uma explicação plausível nos limites do nosso conhecimento.  Não, fé, não era o que eu queria nem o que me satisfazia, mas não tinha nada, absolutamente nada contra os que tinham fé e que sempre foram meus grandes amigos.

Contei tudo isso ao meu amigo ou ex-amigo, já não sabia mais,  pois ele estava furioso com o julgamento que fizera dele. Passado algumas horas e tudo pacificado ele me trouxe num papel escrito com sua letra sôfrega, quase um rabisco o que ele lembrara-se de um texto onde Friedrich Engels queixando-se que não se podia fazer nada com esta gente que quer simplesmente torturar-se e martirizar-se com todo gênero de fantasias sobre o inferno e ao mesmo tempo não se lhes pode meter na cabeça nem sequer os mais primitivos conceitos sobre a justiça. Agora eu estava com 24 anos e feliz por ter encontrado as minhas respostas, nunca taxativas e nunca definitivas. Caminhava num pântano e era muito feliz.

De Claudio Guerra para o baú de Macau