A Mulher Invisível: um conto de Nair Damasceno

0

Nesta sociedade onde o individualismo fala mais alto e todo mundo só pensa no lucro e no consumo, muitos são invisíveis, mormente os mais velhos. Mas, existe alguém que nota as suas presenças. Leia o excelente conto de Nair Damasceno com um final inusitado.

                                                                                 Da equipe do baú de Macau.

A mulher invisível

 

DSC04217De repente sentiu que não era notada e muito raramente ouvida, para isso tinha que dar gritos muito fortes.

Sempre fora uma pessoa discreta no vestir, no falar, nas atitudes, mas aquele dia decidiu ser extravagante. Decidiu ir a uma boate. Usou um vestido cheio de brilho, saltos altíssimos (altamente incômodos), caprichou na maquiagem e saiu cheia de balangandãs. Sentou em uma mesa sozinha no ambiente pouco iluminado da boate e ninguém lhe notou. Pediu refrigerante, depois cerveja, depois vodca. Resolveu dançar. A coluna vertebral começou a incomodar, por isso começou dançando de forma discreta. Em seguida sambou, rodopiou de forma frenética até sentir taquicardia e mesmo assim não foi notada por ninguém.

Por qual razão ninguém lhe notara? Pensou que tivesse morrido e exausta foi para sua casa dormir. Dormiu como uma pedra sob o efeito da vodca.

No dia seguinte levantou ansiosa e foi olhar-se no espelho, se estivesse morta não veria sua imagem refletida. Viu um rosto enrugado, pálpebras caídas e uma cabeleira rala. Não tinha notado que envelhecera, tudo acontecera rápido demais. Teria sido por essa razão que ninguém lhe notara?

Vestiu-se discretamente como era de costume, e foi ao banco pagar o IPVA do carro e mais uma vez também não foi notada por onde passou, nem mesmo na entrada do banco. Não morrera, mas descobriu que tinha se tornado invisível. Ao tentar entrar no banco foi barrada na porta pelo detector de metais.

Concluiu que era uma mulher invisível, mas sensível aos detectores de metais.

                                                                  Nair Damasceno