Pontos de vista

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Cajueiro Joao CamaraO cajueiro, quem o plantou nunca saberei, pois quando comprei o pequeno sítio ele já estava ali frondoso, produtivo e com sinais de muita idade.

Dele, sob o ponto de vista dos pássaros era muito bom. Variados nas cores e cantos, aos bandos viviam a bicar as frutas vermelhas e amarelas, muito doces. Sob o ponto vista das abelhas italianas era excelente, pois um grande enxame estava entre dois troncos, era como uma caverna protegida do vento, da chuva e dos meninos predadores.  Sob o ponto de vista das cobras era um local bom para apanhar pássaros que estavam sempre entretidos em bicar os cajus doces. Sob o ponto de vista do senhor Antonio, o trabalhador que me ajudava a cuidar do sítio, era um cajueiro muito produtivo em castanhas. Ele, o senhor Antonio, todos os dias apanhava-as no chão e as cozia numa lata grande. O senhor Antonio estava sempre muito feliz com aquelas castanhas de caju — as melhores da região – gostava de frisar.

Sob o meu ponto de vista, além dos cajus e das castanhas que comia com um prazer imenso,  a sombra daquela árvore me protegia do sol forte quando adormecia na minha rede onde sempre tinha bons sonhos.

Certa manhã, meu amigo carpinteiro e construtor naval de quase todos os botes, bateiras e batelões daquela praia, ao passar pelo cajueiro me disse: — Este tronco que se estende irregularmente até as alturas seria ideal para a quilha do bote que vou construir.

Bem, era o seu ponto de vista.

De Claudio Guerra para o baú de Macau